Esta é a noite do ano! A noite de todos os acontecimentos, a noite das grandes intervenções de Deus na nossa história. Estamos em vigília, em expectação noturna, em oração, para dar início à celebração do terceiro dia do Tríduo Pascal, o dia da Ressurreição. Começamos na escuridão, a partir da escuridão, a partir da noite do caos primordial, da escuridão do pecado e da morte, para caminhar em direção à luz da Vida, que é o Senhor Ressuscitado. Na mais solene das vigílias, vamos proclamar a Ressurreição de Jesus, o acontecimento por excelência das grandes maravilhas de Deus operadas em nosso favor. Quatro grandes liturgias darão corpo à nossa celebração: a Liturgia da Luz, a Liturgia da Palavra, a Liturgia Batismal, e, como coroamento, a Liturgia Eucarística! Porque é de noite, começamos por acender a Luz. A Luz é a primeira obra da Criação. O Presidente desta celebração irá proceder à bênção do fogo, com o qual acenderá o círio pascal (de ambas as comunidades e das três Igrejas das duas paroquiais). A partir desses círios iremos acender as nossas velas. E só depois entraremos na Igreja em Procissão.

O primeiro dia do Tríduo Pascal é o Dia da Paixão e morte do Senhor, que celebramos hoje de modo solene. A celebração da Paixão tem hoje um expressivo reinício, com uma Procissão em absoluto silêncio e um gesto de prostração. O Presidente não fará qualquer Saudação, depois da prostração, porque, na verdade, todas as celebrações do Tríduo Pascal são uma só: começaram ontem com a Missa da Ceia do Senhor e só terminarão com as Vésperas na tarde do Domingo de Páscoa. Pedimos a todos os presentes que, por favor, tanto quanto a saúde e o espaço lhes permitirem, imitem os ministros da celebração, ajoelhando-se quando eles se ajoelharem e o Presidente se prostrar. Agora, façamos um profundo silêncio, para anunciar, invocar, adorar e comungar a Paixão e a Morte do Senhor.

Estamos em Jerusalém, no Cenáculo, na Sala de cima, na Última Ceia. Estamos reunidos, como irmãos e irmãs, à volta da mesa do Senhor que, desde aquela Última Ceia, nos convida e convoca para celebrar com Ele a Sua Páscoa. Somos convidados a participar do Seu banquete pascal. Na Última Ceia, Jesus surpreende-nos com gestos abissais de amor extremo: o gesto do lava-pés, que aponta para a sua humilhação na Cruz; o gesto da oferta do Pão e do Vinho, pelos quais se dá antecipadamente a nós no Seu Corpo entregue e no Seu Sangue derramado; a instituição do sacerdócio ministerial, confiado aos apóstolos e a entrega do mandamento novo. Sentando-nos, hoje, à mesa com Ele, Jesus faz de nós irmãos e irmãs, reunidos no Seu amor, e cura as nossas feridas de divisão, violência ou inimizade. O tempo que vivemos até agora – uma Quaresma inteira – foi tempo de assumir, descobrir, tratar e curar essas feridas, com o óleo da misericórdia, da fortaleza e da alegria. Por isso, hoje queremos iniciar esta celebração com um rito especial de acolhimento dos Santos Óleos, que são também fonte de cura, para as nossas feridas do corpo e da alma.

Vamos com alegria. Subamos juntos a Jerusalém. Este é o lema que nos conduz no nosso caminho para a Páscoa. E hoje “vamos com alegria”, atrás ou à frente de Jesus, como aquelas crianças hebreias, como os discípulos de Jesus, para O aclamar, nosso Rei, Messias e Redentor. A primeira parte da nossa celebração, neste domingo, comemora esta entrada de Jesus em Jerusalém. Dizemos que é uma “entrada triunfal em Jerusalém”, mas não é uma entrada “triunfalista”, à maneira dos poderosos deste mundo. Jesus apresenta-Se em Jerusalém, como Rei e Messias humilde, montado num jumentinho (Zc 9,9) e não em poderosos cavalos de guerra. Ele é um Rei que quebra os arcos de guerra, um Rei de paz, um Rei da simplicidade, um Rei dos pobres. É em Jesus, que está posta a alegria dos pequeninos. Por isso, gritamos «Hossana», e, dito assim, nós pedimos a Jesus: “Ajudai-nos”. O nosso cântico a Cristo Redentor é, por isso, um cântico de júbilo, de alegria, de esperança no Senhor. Na força débil e na debilidade forte do Seu Amor, Jesus escolhe os pequenos e os humildes, para sua companhia, neste caminho que o levará da entrada triunfal à humilhação na morte de Cruz e da Morte à Ressurreição. Agitemos, pois, os nossos ramos, e, acolhamos os ministros da celebração, nesta Procissão de Entrada. Vamos com alegria e subamos a Jerusalém.

Homilia no V Domingo da Quaresma B 2024

1. E chegámos com alegria a Jerusalém! A cinco dias da Páscoa, não faltam pessoas à volta de Jesus. Entre elas, sobressaem uns gregos, uns curiosos simpatizantes, que fazem este pedido a Filipe: “Senhor, nós queríamos ver Jesus” (Jo 12,21). Esta gente de fora quer ver Jesus por dentro, chegar ao Seu coração. Naquele pedido podemos entrever o pedido de tantos homens e mulheres do nosso tempo: talvez sem se darem conta, pedem-nos hoje não só que lhes falemos de Cristo, mas também e sobretudo que, de certa forma, lh'O façamos ver!

2. Como revela Jesus o seu rosto a quem O procura? Jesus surpreende-nos na resposta: Chegou a Hora de o Filho do Homem ser glorificado(Jo 12,23). Logo depois Jesus declarará que Ele será elevado da terra(Jo 12, 32): elevadoporque será levantado e cravado no alto de uma Cruz, lugar de suprema humilhação; elevado, porque daí, da Cruz, sairá vitorioso, será exaltado pelo Pai, graças à Sua Ressurreição.Portanto, a primeira condição para quem queira conhecer Jesus é olhar a cruz por dentro. É aí, por dentro da Cruz, que se desvela o mistério da morte do Filho de Deus, como um gesto supremo de amor, fonte de cura, de vida e de salvação. Não deixemos, pois, de olhar a Cruz, a partir de dentro, entrando nela, precisamente pelas fendas abertas do seu Corpo Crucificado e glorioso, isto é, entrando pelas suas Santas Chagas!

3. E para explicar o significado da sua morte e ressurreição, Jesus faz uso de uma imagem muito simples: se o grão de trigo, ao cair na terra, não morrer, ele permanece só; mas, se morrer, dará muito fruto(Jo 12,24). Vede: a Cruz é fecunda: atrai-nos para o Pai e cura-nos pelas Suas chagas; vede: a sua morte é fecunda: é fonte inesgotável da vida nova da Ressurreição. Então Jesus parece dizer hoje a cada um: se Me queres conhecer e compreender, olha para o grão de trigo, que morre na terra para frutificar, olha e entra por dentro da Cruz, através das minhas chagase contempla O amor do meu coração por ti, por vós, por todos.

4. Descendo ao concreto, o que nos ensina esta lei do grão de trigo, que morre para frutificar? Olhemos um pouco para a nossa vida e verifiquemos como nela se desenha a parábola do grão de trigo: as nossas alegrias nascem na dor; os maiores sucessos têm sempre o alto preço das nossas entregas escondidas; os nossos êxitos são feitos de sacrifício ocultos. Nenhum fruto, nenhuma coisa boa da nossa vida, que ainda permaneça, nos foram dados sem trazerem consigo o sinal da Cruz, sem terem esta marca do esquecimento, da negação, da humilhação, da morte de nós próprios: seja o filho que tivemos, a casa que construímos, o curso que fizemos, o casamento que vivemos. Mafalda Veiga cantava assim, numa das suas mais belas melodias: “É preciso morrer e nascer de novo; semear no pó e voltar a colher; há que ser trigo, depois ser restolho; há que penar para aprender a viver (…) A vida é feita em cada entrega alucinada, para receber daquilo que aumenta o coração”, daquilo que recria o coração.  

5.Queres então mostrar Jesus a quem hoje O quer ver? Podes entregar-lhes os Evangelhos, onde Se revela o rosto de Jesus. Podes convidá-los a olhar a Cruz, por dentro. Mas sobretudo mostra aos outros o rosto de Jesus, tatuado nas tuas marcas e nas rugas da tua entrega, do teu serviço, da tua vida dada por amor. Testemunha aos outros a alegria de um coração novo e renovado, a alegria de um coração puro e purificado, a alegria de um coração transformado e transformador, a alegria de um coração capaz de morrer e de dar a vida por amor!

 

 

 

 

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