“A caminho com Maria, pelas fontes da alegria”! Este é o lema da nossa caminhada diocesana, que só se concluirá no domingo de Pentecostes. E, neste 3.º Domingo da Páscoa, mais uma vez saímos de casa, e pusemo-nos a caminho, para chegarmos ao encontro com Ele. E eis que, como outrora aos discípulos de Emaús, antes ainda da Liturgia da Palavra e do Pão repartido, Jesus Se atravessa na nossa estrada, de dúvidas e desilusões, para entrar e ficar, para encher e preencher a ânfora vazia dos nossos corações! Ele é Aquele que caminha connosco sempre! Dentro (ou junto) da ânfora, coloquemos um cajado, como símbolo da nossa caminhada, com Jesus sempre ao nosso lado. 

Aleluia. Aleluia. Estamos em Páscoa, por cinquenta dias, de que este é apenas o oitavo! Nos primeiros séculos, os cristãos que, na noite de Páscoa tinham sido purificados pelo Batismo, ungidos pelo Crisma e alimentados pela Eucaristia, apresentavam-se, neste segundo Domingo da Páscoa, vestidos de branco, diante da comunidade. Por isso se chamava domingo «in albis» (de branco / em branco). 

A caminho, com Maria, somos hoje alcançados e renovados pela frescura da manhã de Páscoa, donde brotam, por todo o lado, e nos saciam por dentro, as fontes inesgotáveis da alegria. 

Esta é a noite do ano! A noite de todos os acontecimentos, a noite das grandes intervenções de Deus, na nossa história. Estamos em vigília, em expectação noturna, para dar início à celebração do terceiro dia do Tríduo Pascal, o dia da Ressurreição. Na mais solene das vigílias, vamos proclamar a Ressurreição de Jesus, o acontecimento por excelência das grandes maravilhas de Deus operadas em nosso favor, o triunfo da misericórdia de Deus.

Homilia na Sexta-Feira Santa 2017

I.Hoje é o dia, para nos deixarmos comover e converter, pela Palavra da Cruz; para adorarmos e beijarmos a Cruz do Senhor, num abraço de amor; para rezarmos e nos oferecermos, com Cristo, unidos, como Sua Mãe, ao Seu santo sacrifício. Esta é a Hora, para deixarmos encher as nossas ânforas vazias com a graça da salvação, que brota das fontes da alegria, a jorrar sem se esgotar do lado aberto de Cristo Crucificado e morto por nós.

 

II.Comecemos, por contemplar a Cruz, na sua face dolorosa e tenebrosa e cheios de vergonha e comoção reconheçamo-nos pecadores:

 

1.Ó Cruz de Cristo, ainda hoje Te vemos erguida nas nossas irmãs e nos nossos irmãos assassinados, queimados vivos, degolados e decapitados com as espadas da barbárie e com o silêncio cobarde!

2.Ó Cruz de Cristo, ainda hoje Te vemos nos rostos exaustos e assustados das crianças, das mulheres e das pessoas que fogem das guerras e das violências e, muitas vezes, não encontram senão a morte e muitos Pilatos com as mãos lavadas!

3.Ó Cruz de Cristo, ainda hoje Te vemos, no nosso mar Mediterrâneo e no mar Egeu, transformados num cemitério insaciável, imagem da nossa consciência insensível e anestesiada!

4.Ó Cruz de Cristo, ainda hoje Te vemos, naqueles que querem tirar-Te dos lugares públicos e excluir-Te da vida pública, em nome de um certo paganismo ou mesmo em nome daquela igualdade que Tu próprio nos ensinaste!

5.Ó Cruz de Cristo, ainda hoje Te vemos, nos poderosos e nos vendedores de armas que alimentam a fornalha das guerras com o sangue inocente dos irmãos e que dão de comer aos seus filhos o pão ensanguentado!

6.Ó Cruz de Cristo, ainda hoje Te vemos, nos ladrões e corruptos que, em vez de salvaguardar o bem comum e a ética, vendem-se no miserável mercado da imoralidade!

7.Ó Cruz de Cristo, ainda hoje Te vemos, nos idosos abandonados pelos seus familiares, nas pessoas com deficiência e nas crianças desnutridas e descartadas pela nossa sociedade egoísta e hipócrita!

 

Sim. Nessa Tua Cruz está o pecado do mundo. Mas Tu transformaste a traição em entrega generosa, a entrega à morte em fonte de vida oferecida. “Do Vosso lado, Senhor Jesus Cristo, brotou uma fonte de água viva que lava o mundo dos seus pecados e donde a vida nasce renovada” (RB 41).

 

III.Por isso, transformados pela Tua Cruz, queremos também contemplar e divisar a sua face gloriosa e luminosa, para alcançarmos a renovação da nossa vida:

 

1.Ó Cruz de Cristo, imagem do amor sem fim, e caminho da Ressurreição, vemos-Te ainda hoje, nas pessoas boas e justas que fazem o bem, sem procurar aplausos nem a admiração dos outros!

2.Ó Cruz de Cristo, vemos-Te ainda hoje, nos teus ministros fiéis e humildes, que iluminam a escuridão da nossa vida, como velas que se consomem e se consumam gratuitamente para iluminar a vida dos últimos!

3.Ó Cruz de Cristo, vemos-Te ainda hoje, nos rostos das religiosas e dos consagrados – quais bons samaritanos – que abandonam tudo para enfaixar, no silêncio evangélico, as feridas das pobrezas e da injustiça!

4. Ó Cruz de Cristo, vemos-Te ainda hoje, nas pessoas simples que vivem jubilosamente a sua fé, no dia a dia, e na filial observância dos mandamentos!

5.Ó Cruz de Cristo, vemos-Te ainda hoje, nas famílias que vivem com fidelidade e fecundidade a sua vocação matrimonial!

6.Ó Cruz de Cristo, vemos-Te ainda hoje, nos voluntários que generosamente socorrem os necessitados e os feridos!

7.Ó Cruz de Cristo, vemos-Te ainda hoje, nos que sonham com um coração de criança e que trabalham cada dia para tornar o mundo um lugar melhor, mais humano e mais justo!

 

IV.Em Ti, santa Cruz, vemos Deus que ama até ao fim. Que não nos sacrifica a nós mas Se sacrifica por nós! Ó Cruz de Cristo, ensina-nos que a aparente vitória do mal se dissipa diante do túmulo vazio e perante a certeza da ressurreição e do amor de Deus que tudo recria e transforma.

 

Ó Cruz de Cristo, opera em nós aquela renovação profunda, da qual depende a recriação da nossa vida e a urgente transformação do mundo, que a Páscoa sempre inicia e anuncia!

 

Dobrando hoje os joelhos para a oração universal, ou caminhando em procissão para a adoração da Cruz e Comunhão, continuemos, nos passos de Jesus, «a caminho, com Maria, pelas fontes da alegria»!

 

Notas:

1.  Esta homilia, contextualizada na nossa caminhada diocesana (Porto), é largamente inspirada nas palavras do Papa Francisco, na conclusão da Via-Sacra no Coliseu de Roma, na Sexta-Feira Santa de 2016.

2. As várias exclamações «Ó Cruz» podem ser pronunciadas por leitores diferentes.

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