A caminho, com Maria, somos hoje alcançados e renovados pela frescura da manhã de Páscoa, donde brotam, por todo o lado, e nos saciam por dentro, as fontes inesgotáveis da alegria. 

Esta é a noite do ano! A noite de todos os acontecimentos, a noite das grandes intervenções de Deus, na nossa história. Estamos em vigília, em expectação noturna, para dar início à celebração do terceiro dia do Tríduo Pascal, o dia da Ressurreição. Na mais solene das vigílias, vamos proclamar a Ressurreição de Jesus, o acontecimento por excelência das grandes maravilhas de Deus operadas em nosso favor, o triunfo da misericórdia de Deus.

Homilia na Sexta-Feira Santa 2017

I.Hoje é o dia, para nos deixarmos comover e converter, pela Palavra da Cruz; para adorarmos e beijarmos a Cruz do Senhor, num abraço de amor; para rezarmos e nos oferecermos, com Cristo, unidos, como Sua Mãe, ao Seu santo sacrifício. Esta é a Hora, para deixarmos encher as nossas ânforas vazias com a graça da salvação, que brota das fontes da alegria, a jorrar sem se esgotar do lado aberto de Cristo Crucificado e morto por nós.

 

II.Comecemos, por contemplar a Cruz, na sua face dolorosa e tenebrosa e cheios de vergonha e comoção reconheçamo-nos pecadores:

 

1.Ó Cruz de Cristo, ainda hoje Te vemos erguida nas nossas irmãs e nos nossos irmãos assassinados, queimados vivos, degolados e decapitados com as espadas da barbárie e com o silêncio cobarde!

2.Ó Cruz de Cristo, ainda hoje Te vemos nos rostos exaustos e assustados das crianças, das mulheres e das pessoas que fogem das guerras e das violências e, muitas vezes, não encontram senão a morte e muitos Pilatos com as mãos lavadas!

3.Ó Cruz de Cristo, ainda hoje Te vemos, no nosso mar Mediterrâneo e no mar Egeu, transformados num cemitério insaciável, imagem da nossa consciência insensível e anestesiada!

4.Ó Cruz de Cristo, ainda hoje Te vemos, naqueles que querem tirar-Te dos lugares públicos e excluir-Te da vida pública, em nome de um certo paganismo ou mesmo em nome daquela igualdade que Tu próprio nos ensinaste!

5.Ó Cruz de Cristo, ainda hoje Te vemos, nos poderosos e nos vendedores de armas que alimentam a fornalha das guerras com o sangue inocente dos irmãos e que dão de comer aos seus filhos o pão ensanguentado!

6.Ó Cruz de Cristo, ainda hoje Te vemos, nos ladrões e corruptos que, em vez de salvaguardar o bem comum e a ética, vendem-se no miserável mercado da imoralidade!

7.Ó Cruz de Cristo, ainda hoje Te vemos, nos idosos abandonados pelos seus familiares, nas pessoas com deficiência e nas crianças desnutridas e descartadas pela nossa sociedade egoísta e hipócrita!

 

Sim. Nessa Tua Cruz está o pecado do mundo. Mas Tu transformaste a traição em entrega generosa, a entrega à morte em fonte de vida oferecida. “Do Vosso lado, Senhor Jesus Cristo, brotou uma fonte de água viva que lava o mundo dos seus pecados e donde a vida nasce renovada” (RB 41).

 

III.Por isso, transformados pela Tua Cruz, queremos também contemplar e divisar a sua face gloriosa e luminosa, para alcançarmos a renovação da nossa vida:

 

1.Ó Cruz de Cristo, imagem do amor sem fim, e caminho da Ressurreição, vemos-Te ainda hoje, nas pessoas boas e justas que fazem o bem, sem procurar aplausos nem a admiração dos outros!

2.Ó Cruz de Cristo, vemos-Te ainda hoje, nos teus ministros fiéis e humildes, que iluminam a escuridão da nossa vida, como velas que se consomem e se consumam gratuitamente para iluminar a vida dos últimos!

3.Ó Cruz de Cristo, vemos-Te ainda hoje, nos rostos das religiosas e dos consagrados – quais bons samaritanos – que abandonam tudo para enfaixar, no silêncio evangélico, as feridas das pobrezas e da injustiça!

4. Ó Cruz de Cristo, vemos-Te ainda hoje, nas pessoas simples que vivem jubilosamente a sua fé, no dia a dia, e na filial observância dos mandamentos!

5.Ó Cruz de Cristo, vemos-Te ainda hoje, nas famílias que vivem com fidelidade e fecundidade a sua vocação matrimonial!

6.Ó Cruz de Cristo, vemos-Te ainda hoje, nos voluntários que generosamente socorrem os necessitados e os feridos!

7.Ó Cruz de Cristo, vemos-Te ainda hoje, nos que sonham com um coração de criança e que trabalham cada dia para tornar o mundo um lugar melhor, mais humano e mais justo!

 

IV.Em Ti, santa Cruz, vemos Deus que ama até ao fim. Que não nos sacrifica a nós mas Se sacrifica por nós! Ó Cruz de Cristo, ensina-nos que a aparente vitória do mal se dissipa diante do túmulo vazio e perante a certeza da ressurreição e do amor de Deus que tudo recria e transforma.

 

Ó Cruz de Cristo, opera em nós aquela renovação profunda, da qual depende a recriação da nossa vida e a urgente transformação do mundo, que a Páscoa sempre inicia e anuncia!

 

Dobrando hoje os joelhos para a oração universal, ou caminhando em procissão para a adoração da Cruz e Comunhão, continuemos, nos passos de Jesus, «a caminho, com Maria, pelas fontes da alegria»!

 

Notas:

1.  Esta homilia, contextualizada na nossa caminhada diocesana (Porto), é largamente inspirada nas palavras do Papa Francisco, na conclusão da Via-Sacra no Coliseu de Roma, na Sexta-Feira Santa de 2016.

2. As várias exclamações «Ó Cruz» podem ser pronunciadas por leitores diferentes.

Celebremos, em festa, o mistério pascal do Senhor, pelo qual se dá a grande transformação da traição em entrega, da morte em vida, do poder em serviço. Na Última Ceia, revela-Se em Jesus, um Deus, que, por nós, Se faz Servo, para fazer de nós servidores da caridade. Na Última Ceia revela-Se em Jesus, um Deus, que, por nós, Se faz Pão, e de nós faz pão repartido para a vida do mundo, tornando-nos testemunhas da compaixão de Deus. 

 

Irmãos caríssimos, desde o princípio da Quaresma, vimos a preparar-nos para a celebração anual da Páscoa, “caminhando, com Maria, pelas fontes da alegria”: a conversão, que nos faz voltar para o Senhor; a Palavra que nos faz seus discípulos; a adoração, que nos livra dos falsos deuses; a contemplação que abre aos nossos olhos a luz da fé; a oração que fortalece a amizade com o Senhor. E, nesta semana, vivemos o sacrifício de Cristo, pelos outros, como fonte de generosidade e de vida.

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