Homilia no IV Domingo da Quaresma Ano C 2016

Esta é uma daquelas parábolas, de que me abeiro, descalço e a tremer, com medo de tocar na tela e «estragar» a pintura, com explicações, sem propósito. Jesus consegue contar esta parábola, de forma tão viva, tão bela e comovente, que chega a parecer uma novela da vida real, se vestirmos a roupa do filho mais novo, perdido da cabeça, ou a do filho mais velho, duro de coração. Mas se, pelo contrário, nos pusermos à janela do Pai misericordioso, com vista direta para o coração de Deus, a nossa perspetiva muda completamente. Nada naquele Pai é normal: a liberdade com que entrega a herança e deixa o filho partir, a esperança que O mantém à janela de olho no filho até que regresse, a festa de arromba que manda preparar sem esperar por um pedido de perdão, a loucura daquela alegria maior que Lhe inunda o coração ao oferecer sem medida o perdão.

Para sermos justos, temos de reconhecer que o filho mais velho dá voz à nossa absoluta estranheza. Ele dá-se conta de que, neste Pai, não há lógica, não há justiça retributiva, não há limites para o perdão. No Pai, está tudo virado do avesso e por excesso: não fica fechado em casa à espera de um ajuste de contas, mas sai ao encontro do filho mais novo para o abraçar, e sai uma vez mais para convidar o filho mais velho a entrar. Para este Pai não conta o mérito ou demérito dos filhos, mas o Seu infinito Amor por eles. Nem tão pouco este Pai exige sinais de arrependimento sincero, para manifestar o excesso da Sua compaixão. Com o Seu perdão, rejeita a farda de patrão, dobra o seu coração e desdobra-se em compaixão, reveste-se de entranhas de misericórdia. Para este Pai misericordioso, se há mais alegria em dar (At.20,35), há ainda uma alegria maior em perdoar!

Jesus, ao contar assim esta parábola, responde ao murmúrio dos fariseus e escribas, que O criticavam por acolher os pecadores e comer com eles. Com isto está a dizer-lhes: «é assim o Pai, que está nos céus. É assim o Seu Filho, na terra. Quem me vê, vê o Pai. Tal Pai, tal Filho». A obra de misericórdia – dirá Jesus – é esta: se quereis vestir a túnica de filhos, deixai-vos revestir pelo manto misericordioso do Pai! O desafio não é vestir a pele do filho mais novo ou a do filho mais velho. É revestir-se de “sentimentos de misericórdia, de bondade, humildade e paciência e perdoarmo-nos uns outros” (Col.3,12-13). Ou, dito de outro modo: «sede misericordiosos, como o Vosso Pai é misericordioso» (Lc.6.36).

E, chegados aqui, está tudo dito. Mas – perdoai-me o tempo que vos vou tirar –não resisto a comentar esta parábola do evangelho com uma parábola da vida real. Foi assim[1]:

«João, com vinte anos, tinha feito uma canalhice imunda aos seus pais. Então, o pai disse-lhe:

– João, sai e nunca mais voltes a entrar! Nunca mais ponhas os pés cá em casa!

João saiu, com a morte na alma. Algumas semanas mais tarde, disse para si mesmo: “Eu fiz porcaria da grande, vou pedir perdão ao meu velho”…

E então escreveu ao pai:

Pai, peço-te desculpa. Fui nojento e um sacana, fui do piorio contigo, mas achas que me podes perdoar? Não te escrevo a minha morada no remetente desta carta, mas se me puderes desculpar põe um lenço branco pendurado na macieira que está à frente de casa. Tu sabes qual é, a última da longa alameda de macieiras que leva a casa. Nesta última árvore pendura um lenço branco. Assim saberei se posso voltar a casa”.

Morto de medo, pensava: “O meu pai nunca irá colocar lá esse lenço branco”.

E foi então que pediu ao seu amigo Marcos:

Suplico-te que venhas comigo e fazemos assim: eu vou conduzir até quinhentos metros antes da casa e depois passo-te o volante. Depois fecho os olhos. Lentamente, tu vais descer essa alameda de macieiras e vais parar na última. Se vires o lenço branco pendurado, dizes-me e saio a correr. Se não, continuarei de olhos fechados e vamos embora. E não voltarei nunca mais a casa, como o meu pai disse”.

E assim fizeram. A quinhentos metros da casa, João passa o volante a Marcos e fecha os olhos. Lentamente, Marcos desce a alameda das macieiras. Depois pára. E João, com os olhos sempre fechados, diz:

“Marcos, o meu pai pôs um lenço branco pendurado na macieira?”

Marcos responde-lhe:

“Não, não pôs um lenço branco na macieira diante da casa… há centenas em todas as macieiras que levam a casa!”».

Olhai… O pai poderia ter dito: “Como é que tu me fizeste isto a mim, ao teu pai, a mim que me mato por ti”? O pai poderia ter dito: “Tu és a vergonha da família a perseguir assim as raparigas, sem trabalho, sem dinheiro, sem casa”. O pai poderia ter dito: “Eu na tua idade já trabalhava. Eu não tinha um chavo para me divertir e ser feliz”. O pai poderia ter dito: “Vê bem o estado em que puseste a tua mãe”. O pai poderia ter dito: “O teu irmão é diferente. Pelo menos, é sério” Mas o pai não disse nada disto. Ele simplesmente abriu os braços, abriu a porta[2] da misericórdia. E mandou os servos preparar uma festa de arromba e revestir o filho com a melhor túnica!

Esta semana, cabe-nos praticar com alegria esta obra de misericórdia: “vestir os nus”! Para isso, nem é preciso muito pano. Bastará um simples lenço branco, como a veste com que fomos revestidos, para sempre, desde o dia do nosso Batismo! Ah… o lenço também serve para limpar as lágrimas, da conversão, do perdão e da alegria, que desaguam no grande rio da misericórdia divina

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