Homilia no IV Domingo do Tempo Comum A 2026
1.São oito as Bem-Aventuranças e elas tocam os nossos anseios mais profundos de felicidade plena.Na verdade, a sede de felicidade move o mais profundo do coração da pessoa humana, que foi criada à imagem e semelhança de Deus, para ser feliz. Todos nós, desejamos profundamente ser felizes! Todos queremos amar e ser amados, todos desejamos uma vida plena e realizada. Contudo, a felicidade que o mercado das ilusões nos oferece é fugaz e superficial — depende do bom momento, do sucesso, da saúde, da boa aparência, do êxito, do poder ou da posse dos bens. A felicidade prometida pela indústria do prazer e do consumo não convive bem com a fragilidade, a dor, o sofrimento, a doença, a morte e o luto. Jesus, no Sermão da Montanha, apresenta-nos uma felicidade, que nada tem a ver com esse tipo de qualidade de vida, idealizada pela civilização do bem-estar: essa é uma felicidade barata, mas que se paga bem caro!
2.A felicidade que Jesus nos propõe e nos oferece gratuitamente não exclui as dores do corpo, as escuridões da alma, os vales tenebrosos da vida. Jesus não receita terapias de cura rápida, não vende ilusões, nem paraísos fiscais ou artificiais de felicidade instantânea. As palavras de Jesus, pelo contrário, mantêm-nos vivos, na fragilidade, na luta e no luto, na crise, no fracasso, e, por isso, não conduzem ao vazio, ao entorpecimento, ao adormecimento, mas ao prazer de superar os obstáculos, sem os ignorar ou contornar. Jesus quer conduzir-nos a uma vida bem resolvida, a uma vida feliz, mas não a uma vida fácil! Para Jesus, felicidade não se confunde com facilidade!
3.Sobre o Monte, Jesus mostra-nos toda a amplidão do desejo de felicidade, que há no coração humano. Ali nos revela que a verdadeira alegria floresce onde o mundo não a procura. Há uma felicidade secreta, oculta, que supera e compensa toda a infelicidade e que já está presente na nossa vida. Jesus parece dizer a cada um: “Há em ti, mais do que imaginas. Há em ti um anseio mais profundo: ser pobre em espírito, livre de dependências; ser manso, justo, misericordioso, puro, criador de paz, fiel à tua consciência, mesmo se perseguido”. Na verdade, o pobre de espírito, o manso, o misericordioso, o puro de coração, o lutador e o perseguido, é feliz, porque experimenta já, em si, uma porção dessa plenitude de vida, na medida em que alcança, por este caminho, a união e a comunhão com Deus. O ser humano só se torna livre, manso, misericordioso, corajoso, compassivo, se Deus reinar nele. Deus a reinar em nós é o coração de uma vida feliz!
4.Irmãos e irmãs: as Bem-Aventuranças propõem-nos um caminho realista de felicidade, uma verdadeira arte de viver, de modo são e santo; elas são como que um guia e um caminho, para uma vida bem conseguida, para uma vida plena e feliz. Vale a pena vivê-las, seguindo e imitando a Cristo, Aquele que as encarna na perfeição. Não estamos sós nessa subida. Nesta «escada» ou «escalada», que devemos subir para alcançar a felicidade, é o próprio Jesus que nos toma pela mão, para nos acompanhar e apoiar nos degraus, sobretudo quando a subida se torna mais custosa.
5. Cada Bem-Aventurança é, na prática, um convite de Jesus a viver reconciliados com a nossa própria fragilidade, descobrindo que o sentido da vida não está em ter tudo, dinheiro, saúde e sucesso, mas em ser plenamente quem somos, pessoas criadas à imagem de Deus, pessoas amadas, habitadas e transformas, pouco a pouco, por Ele, à imagem de Jesus, pobre e livre, manso e humilde, misericordioso e compassivo, pacífico e perseguido.
Este é o caminho: uma via com oito faixas de rodagem para uma vida feliz! Escolhe apenas uma delas e acabarás por percorrer todas as outras, sem nunca perder de vista a meta do caminho: a felicidade, na comunhão com Deus, a felicidade, que se encontra no coração, onde Deus começa a reinar.