HOMILIA NO VI DOMINGO DE PÁSCOA A 2026
1.Abrir caminhos de esperançaé o desafio que levamos a peito neste ano pastoral. E hoje, o Apóstolo São Pedro concretiza este desafio, ao dirigir-se aos cristãos de Roma, há pouco batizados, mas logo caluniados e injuriados, por causa da sua fé e da sua pureza de vida. Dizia-lhes São Pedro: “Venerai – santificai, adorai– Cristo, em vossos corações, prontos sempre a responder a quem quer que seja sobre a razão da vossa esperança” (1 Pe 3,15). E a razão da nossa esperança é esta, que celebramos festivamente ao longo destes cinquenta “dias de alegria em honra de Cristo Ressuscitado” (cf. Oração coleta): “Cristo morreu uma só vez pelos nossos pecados, para nos conduzir a Deus, morreu segundo a carne, mas voltou à vida pelo Espírito” (1 Pe 3,19)! Cristo ressuscitou, está vivo entre nós e habita em cada um de nós, por meio do Espírito Santo, que nos defende, consola e encoraja. A vitória da Páscoa não é, pois, a vitória do mal mais potente ou prepotente, mas é a vitória do amor sobre o ódio, da vida sobre a morte. A nossa esperança, a partir da Páscoa, não é, portanto, uma ideia ou um ideal, um sonho sentimental, nem dez reis de saúde ou dinheiro na algibeira! Não. A razão e o pão da nossa esperança é o Senhor Jesus Ressuscitado, Cristo vivo e presente em nós, Aquele que nos habita e nos habilita, por meio do Seu Espírito Santo!
2.Eis porque a razão da esperança, a propor a quem no-la pede, não é uma teoria a argumentar, uma ideia a impor; é sobretudo um testemunho corajoso a oferecer! E isso pode acontecer, precisamente quando, por causa da nossa fé, da nossa esperança e do nosso amor a Cristo, somos atacados, criticados, desprezados, caluniados; ou simplesmente quando somos odiados, pelo nosso amor ao bem, à verdade, à justiça. Em tais circunstâncias, somos desafiados a defender a fé e a propor a esperança, sem levantar a voz; a contrapor à agressividade a brandura e o respeito; a reagir à calúnia com a serena paz da consciência, certos de que mais vale padecer por fazer o bem do que por fazer o mal. Certamente não é agradável sofrer, mas quando sofremos pelo bem, pela justiça e pela verdade, estamos em comunhão com o Senhor, que sofreu pelos nossos pecados – o Justo pelos injustos – e foi crucificado pela nossa salvação. A capacidade de aceitar o sofrimento por amor do bem, da verdade e da justiça, faz parte da grandeza da nossa humanidade, porque se, em definitivo, o meu bem-estar, a minha comodidade e até a minha saúde, são mais importantes do que o bem, a verdade e a justiça, então vigora o domínio do mais forte, reinam a violência e a mentira (cf. Spe salvi, n.º 38). Temos hoje tanta necessidade de cristãos, que testemunhem isto mesmo: preferir Cristo ao bom nome; preferir o bem, a justiça e a verdade, à sua própria comodidade. Esse é o único modo de viver a vida, de verdade! Nas redes sociais e nas relações pessoais e familiares, tão minadas pela agressividade intolerante das palavras duras, só a brandura e o respeito podem confundir os que dizem mal do nosso bom procedimento em Cristo!
3.Seremos nós capazes disto? De dar razões de esperança, de combater na fé sem as armas ferozes do mundo, até ao ponto de não nos pouparmos a nós e aos nossos legítimos interesses individuais? Sim, seremos capazes disso, se Cristo habitar dentro dos nossos corações, se estivermos animados por essa chama viva da esperança, que é o Espírito de Cristo vivo em nós! Quando nós, nas situações mais simples e nas mais importantes da nossa vida, aceitamos sofrer por Cristo, pelo bem, pela verdade, pela justiça, espalhamos, ao nosso redor, sementes da Ressurreição e fazemos resplandecer, na escuridão destes tempos de guerra, a luz da Páscoa e da Paz do Senhor. Peçamos ao Senhor a graça de respondermos ao mal com o bem, à arrogância com a humildade, à crueldade com a misericórdia, à violência com a mansidão, à má-língua com o louvor e à injúria com a bênção. Cada vez que padecermos corajosamente por fazer o bem, resplandeceremos, como sinais luminosos de esperança. Sejamos cristãos mansos e dóceis, mas firmes e corajosos, para darmos razões de esperança a um mundo armado até aos dentes. Que o Espírito do Senhor nos torne instrumentos daquela paz desarmada e desarmante, que Leão XIV tanto nos pede. Nada há hoje de mais urgente, do que essa paz, desarmada e desarmante, se queremos mesmo oferecer razões e abrir caminhos de esperança!