Homilia na Quarta-Feira de Cinzas 2026
“Convertei-vos a mim de todo o coração.
Rasgai o vosso coração e não os vossos vestidos” (Jl 2,13)!
1. A conversão é um regresso do nosso coração a Deus! E pede acesso livre de Deus ao nosso coração. Não é, simplesmente, uma operação cosmética anual, uma limpeza de fachada, um refrescar da imagem poluída pelo tempo. A conversão processa-se no mais íntimo do nosso ser, vai ao coração do nosso coração, a esse centro nuclear e unificador da pessoa humana, onde tudo se define e se decide, onde encontram raiz as nossas convicções, paixões e escolhas. Por isso, a conversão não é comparável a uma mudança de roupa, a um rasgar das vestes, que nos deixaram de servir. O Profeta Joel fala em “rasgar o coração”. Rasgar, para abrir nele acessos, uma brecha, pela qual Deus possa entrar, fazer-Se ouvir, dar-Se a saborear, deixar-Se ver e tocar, até que possamos cheirar e exalar, por toda a parte, o perfume da vida nova da Páscoa do Senhor.
2. Para rasgar o nosso coração, para abrir nele novos acessos à graça de Deus, é preciso abrirmos-Lhe também os nossos cinco sentidos. Os cinco sentidos não são obstáculos à fé, mas verdadeiras portas de acesso ao mistério da vida e ao mistério de Deus. É por aí — por essa brecha humilde e concreta dos sentidos — que se abre caminho à mudança interior, sem a qual jamais se pode voltar a Deus de todo o coração. Vivemos, na verdade, um tempo de atrofia dos sentidos: ouvimos sons, mas raramente escutamos; consumimos sem saborear; vemos muito, mas reparamos pouco; tocamos sem cuidar; respiramos sem reconhecer o perfume da vida. Esta insensibilidade fecha-nos à relação com Deus e com os outros. Por isso, importa educar, abrir e despertar os nossos sentidos, para que o nosso coração “não se perca entre as inquietações e as distrações do quotidiano” (MPQ2026).A abertura dos sentidos significa usar os sentidos espiritualmente, para escutar Deus, para saborear a Sua presença, para ver os Seus sinais, para tocar a Sua presença no próximo, para exalar o perfume da Páscoa.
3. Abrir os cinco sentidos ao sentido da fé implica disciplinar os desejos do nosso coração, atulhado de coisas e loisas, de imagens e selfies, de ruídos e de palavras agressivas – de que é preciso jejuar, com a boca e a língua. Mas não se trata de reprimir os sentidos, mas de os abrir e despertar, para ampliar o espaço do nosso coração, “de tal modo que se volte para Deus e se oriente para agir no bem” (MPQ2026). Na Quaresma, os nosso cinco sentidos são educados e abertos, para passarmos da distração à atenção, do consumo à relação, do ruído à escuta, do excesso à simplicidade, da indiferença à compaixão. A caminhada proposta pela nossa Diocese é, pois, um caminho, em que Cristo abre progressivamente os nossos sentidos, permitindo que cada instante, cada experiência captada pelos nossos sentidos, se torne lugar de encontro com Deus e, por isso mesmo, de vida nova. Esse é o objetivo da caminhada: despertar e abrir os sentidos, para alcançar a vida nova da Páscoa e fazer dela a verdadeira Festa do sentido da vida, a Festa maior, em todos os sentidos!
4. Irmãos e irmãs: O Papa Leão XIV, na sua primeira Mensagem para a Quaresma, desafia-nos à escuta e ao jejum, pondo assim de relevo, pelo menos dois dos cinco sentidos: o do ouvido e do paladar. Mas deixa uma nota final, que é tão importante, para nós. Não vamos percorrer esta caminhada sozinhos. Não. Este caminho da Quaresma deve ser – diz Leão XIV – “um caminho partilhado”. Percorramo-lo então juntos, como nos desafiava o profeta Joel, naquela chamada à conversão: “reuni o povo, convocai a assembleia, congregai os anciãos, reuni os jovens e as crianças” (Jl 2,16). E São Paulo também nos deixava um apelo, dirigido no plural: “Reconciliai-vos com Deus” (2 Cor 5,20).
5. Que esta caminhada, que faremos juntos, ajude cada fiel, em comunidade, a abrir novos acessos a Deus, no seu coração, para alcançarmos a vida nova da Páscoa e cheirarmos aquele perfume da Ressurreição, que Deus quer exalar e difundir sobre o nosso mundo. Ámen.