Liturgia e Homilias no II Domingo da Quaresma A 2026
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No alto do Monte Santo do Tabor, Jesus oferece aos seus mais íntimos amigos, uma visão antecipada da sua Páscoa gloriosa. Essa é a meta, esse é o sentido último do nosso caminho quaresmal. Mas a voz de Deus Pai, no contexto desta visão, convida-nos sobretudo a escutar o Seu Filho: «Escutai-O». Entre os cinco sentidos, parece que Deus privilegie precisamente o ouvido, talvez por ser menos invasivo e mais discreto do que a vista” (Papa Francisco, Mensagem DMCS 2022). Na Bíblia, o sentido da audição é mais valorizado que o da visão. Por isso o mandamento que precede todos os mandamentos é o da escuta: «Escuta, Israel» (Dt 6,4). Valorizemos, nesta celebração, o sentido da audição, o ouvido, o silêncio, para que a nossa fé brote da escuta (Rm 10, 17) e seja resposta à Palavra de Deus, que se faz ouvir na Palavra de Seu Filho muito amado.

Homilia no II Domingo da Quaresma A 2026

1.“Escutai-O” (Mt 17,5). Este é o mandamento que recebemos hoje do Pai, cuja voz se faz ouvir no silêncio de um alto Monte. “Escutai-O”. Jesus é a Palavra de Deus em carne viva. Estamos, pois, perante o desafio da escuta, que exige, da nossa parte, uma afinação e uma ampliação do sentido espiritual do ouvido. Sim. O sentido que nos propomos abrir, nesta 2.ª semana da Quaresma, é o do ouvido, pois, como diz o Papa Leão XIV, na sua Mensagem para a Quaresma, “a disponibilidade para escutar é o primeiro sinal com que se manifesta o desejo de entrar em relação com o outro”. A escuta é condição para ouvir o grito, por vezes, silencioso do mundo que sofre; para ouvir o outro na sua alegria ou aflição; para ouvir o próprio silêncio de Deus, cuja voz discreta não faz ruído! Escutar é verdadeiramente um exercício espiritual, que nos desafia a abrir e a inclinar o ouvido do coração para o outro, que me quer falar, interpelar, entrar em relação comigo. É inclinar-se e dispor-se a acolher o outro, no que diz e no que não é capaz de me dizer. Não basta dar ouvidos; é preciso inclinar o ouvido do coração, porque a escuta não é apenas a recolha de um discurso sonoro, a descodificação de sons dispersos. Antes de tudo, escutar é inclinar-se para o outro, é estar disponível para hospedar e dar lugar ao outro, no próprio coração. Escutar é a primeira forma de amar alguém e, por isso mesmo, o mandamento ‘Escuta, Israel’ (Dt 6,4) está à cabeça de todos os outros preceitos.

2.Escutemos e do princípio ao fim. Quem escuta até ao fim, com empatia e simpatia, sem interromper o outro, está disponível para se deixar instruir, interpelar e transformar pelas ideias, pelas experiências, pelos pensamentos e sentimentos do outro. Ora, muitas vezes, sucede o contrário: quando alguém nos fala, nós não estamos verdadeiramente a escutar; estamos já intimamente a preparar a resposta, o contra-ataque, de tal modo que, ainda a pessoa não acabou de falar, e já temos a resposta armada, na ponta da língua. Mal esperamos que o outro termine, para dizermos a verdade ou a razão que julgamos possuir! Mas quem escuta, de verdade, aceita que o outro possa ver o que eu não vejo, admite que precisa de aprender e tem muito a receber do outro. Por isso, escutar implica estar disponível para me deixar pôr em causa, para me pôr no lugar do outro, para mudar de ideias, para mudar de posição, a partir daquilo mesmo que acabo de escutar.  Quando Deus Pai nos diz, a respeito de Seu Filho Amado, “Escutai-O”, está a dizer-nos isso mesmo: “Acolhei-O; recebei-O; deixai que a sua Palavra vos toque, vos transforme”.  

3.Por isso, a primeira forma de hospitalidade é escutar, é ser todo-ouvidos. É uma bênção encontrarmos hoje uma pessoa que nos escute, sem cera nos ouvidos: sem a cera do ruído, da pressa, do preconceito, do julgamento, da superioridade. “Vede como ouvis”, dizia Jesus (Lc 8,18). Porque nós até ouvimos muito. Emprenhamos pelos ouvidos. Mas escutamos pouco e mal. Ouvimos notícias ao minuto, opiniões, comentários, notificações, que se sucedem em catadupa, a cada segundo. Vivemos isolados e cercados pelos nossos auscultadores, bombardeados de palavras agressivas, de músicas barulhentas, de ruídos estridentes, que tão depressa entram como mais depressa saem pelos ouvidos. Mas escutar é coisa bem diferente. Implica silenciar exteriormente, para acolher interiormente! Por isso, tem sentido aquela advertência sábia “torna-te surdo e ouvirás” (Evágrio), isto é, procura o silêncio, torna-te surdo ao ruído, às palavras loucas, às gritarias… e ouvirás o que não se faz ouvir!

4.Irmãos: para curar a nossa surdez, limpar, afinar e ampliar espiritualmente o nosso ouvido, nesta 2.ª semana da Quaresma, silenciemos um pouco mais as televisões, os rádios, os smartphones. Escutemos e meditemos mais a Palavra de Deus; escutemo-nos mais e melhor, em família, nos locais de trabalho, nas comunidades paroquiais. E interroguemo-nos: Que vozes e ruídos me impedem hoje de escutar Jesus? Com quem estou ainda em dívida de escuta? Levemos a peito este desafio muito prático, para esta 2.ª semana: “Cada um seja pronto para ouvir e lento para falar” (Tg 1, 19). Esta é a receita do otorrino divino, para a cura da nossa surdez: Falar menos, ouvir mais!

 

 

 

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