Homilia no 3.º Domingo da Quaresma C 2025
1. Ancoramos na vinha da conversão! E na vinha há um vinhateiro, que sabe escavar a esperança, onde a coisa não promete! Estamos diante de uma figueira, que cresce no meio da vinha, mas não dá frutos! Faz sombra, ocupa terreno, para nada! Mas, contra todas as expetativas, quando o dono da vinha já se apressava para a machada final, o vinhateiro pede ao seu senhor um pouco mais de paciência, pede-lhe mais um ano, mais uma oportunidade. E promete ele próprio cavar e adubar a figueira – coisa estranha para uma árvore que não pede tais mimos! O vinhateiro não se poupará a esforços, animado apenas pela pequenina esperança de quem ama o futuro que não vê: «talvez venha a dar fruto no futuro» (Lc 13,9). Não é uma certeza, não é sequer uma previsão otimista, mas é uma esperança, que brota daquele amor, que tudo espera (1 Cor 13,7)! Já não somos apenas nós que dizemos ao Senhor «no caminho, eu confio em Ti», mas é o próprio Deus que nos diz a nós, que precisamos de uma oportunidade de mudança: «no caminho, eu confio em ti».
2. Deus sempre nos dá uma possibilidade, uma oportunidade de conversão, uma chance de mudança. Dar uma possibilidade é a única coisa que nos salva. Negar uma possibilidade é como tirar a alguém o ar que respira! Quando alguém desespera, dêmos-lhe uma oportunidade e o desesperado recuperará o ânimo. Deus nunca nos deixa sem uma possibilidade, porque a sua graça pode fazer de cada situação, mesmo a mais desgraçada ou desesperada, uma ocasião de bem! A esperança dá-nos asas, «ancoraja-nos», abre novas possibilidades de futuro, mesmo quando já não se espera nada de nós. O amor não pode desesperar. Pede sempre uma dilação da graça, uma nova oportunidade.
3. Desde o primeiro dia da Quaresma, na Quarta-Feira de Cinzas, nós ouvimos dizer que este este é um tempo duplamente favorável (cf. 2 Cor 6,2): por ser Quaresma – tempo forte de conversão – e por ser um Ano Jubilar, um ano de indulgência, um ano para o Grande Perdão. Esta oportunidade é-nos dada pela infinita paciência de Deus, que Se revelou a Moisés, como «um Deus clemente e compassivo, lento para a ira, cheio de misericórdia e fidelidade» (Ex 34,6), «um Deus paciente e misericordioso» (Nm 14,18). Na verdade, a paciência de Deus é sem limites! Mas não é sem limites o tempo da minha vida. A paciência, de mais um ano, não é pretexto para eu adiar a minha conversão. O prazo alarga-se para que eu possa aproveitar a oportunidade de conversão, para que possa dar frutos de vida nova!
4. O Jubileu da Esperança desafia-nos a aproveitar esta oportunidade, mas também a dar uma oportunidade aos outros e isso implica esperar com paciência. A paciência é a parente mais próxima da esperança! Na era da internet, do «tudo e já», a paciência deixou de ser de casa, foi posta em fuga pela pressa, causando-nos grave dano (cf. SNC 4)!Precisamos de exercitar a paciência: a paciência de Deus connosco, que é sem limites; a paciência com Deus, que só Se atrasa em relação à nossa pressa, mas não em relação à Sua Promessa; a paciência comigo mesmo, que tantas vezes me canso de mim e dos meus tropeções; a paciência com os outros, tão diferentes nos seus ritmos e feitios! Precisamos de aprender a esperar, a dar tempo ao tempo, dizendo a Deus, «no caminho eu confio em Ti», mas dizendo também aos outros esta palavra de estímulo: «no caminho, eu confio em ti»!
5. Peçamos ao Senhor a graça da paciência, que é parente mais próxima da esperança e, ao mesmo tempo, o seu suporte. Esperança e paciência caminham sempre de mãos dadas! Quando o desespero, a noite escura e a desilusão te ameaçarem, aduba-te de paciência e escava ainda mais fundo para unhares bem a âncora da esperança. E diz ao Senhor: “No caminho, eu confio em Ti”. E o Senhor dir-te-á: «Ancoraja-te! E espera».