Liturgia e Homilia na Festa em honra de Nossa Senhora da Hora
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Estamos na sexta semana da Páscoa, e a haver feriado, esta seria a quinta-feira da ascensão! Nesta reta final do tempo pascal, em pleno mês de maio, temos bem presente a Virgem Maria, que entre a Ressurreição de seu Filho e a vinda do Espírito Santo, no Pentecostes, permanecia em oração, na sala da Última Ceia, juntamente com os Apóstolos e os primeiros discípulos. Maria acompanhou o seu Filho, desde o berço à Cruz e acompanha a Igreja, até ao fim dos tempos. Por isso, podemos exclamar, cheios de confiança, ao jeito do Papa Francisco: “Temos Mãe. Temos Mãe” (Homilia, Santuário de Fátima, 13.05.2017).

Homilia na Festa em honra de Nossa Senhora da Hora 2018

Um Hino novo a Nossa Senhora da Hora

 

“Nossa Senhora da Hora,

nas bodas de Caná e junto à Cruz!

Em todas as horas, mostra que és nossa Mãe!

Mostra-Te, Mãe de Jesus!

Mostra-Te, Mãe de Jesus”!

 

Este é o refrão do Hino novo a Nossa Senhora da Hora, que eu mesmo escrevi e que o nosso organista José António Machado compôs magistral e musicalmente. Procurei, para a redação deste Hino novo, uma inspiração bíblica e litúrgica, quer no conteúdo do refrão, quer no enunciado das quatro estrofes, de modo a situar o título e a invocação de «Nossa Senhora da Hora», no mistério de Cristo e da Igreja.

 

Por isso, para melhor compreendermos a letra deste Hino novo, a pergunta que importa hoje responder é esta: Afinal “de que «Hora» falamos quando invocamos a Mãe de Jesus, como «Nossa Senhora da Hora»”?

 

1. A hora anunciada e iniciada nas Bodas de Caná

 

Em primeiro lugaré a Hora anunciada e iniciada por Jesus nas bodas de Caná (cf. Jo 2,3),quando Ele responde a Maria, sua Mãe: “Mulher, a minha Hora ainda não chegou” (Jo 2,3). Começava ali a manifestar-se a Sua hora, que havia de consumar-se na Cruz. Por isso cantamos, ligando os dois acontecimentos, sob a mesma invocação: “Nossa Senhora da Hora / nas bodas de Caná e junto à Cruz”!

No sinal admirável das bodas de Caná, realizado, pela intermediação de Maria, Jesus manifestou a Sua glória, mostrou-Se a Si mesmo como o Messias prometido por Deus, como o Mestre a quem dos discípulos aderem pela fé, como o Senhor, cujos mandatos cumprem os serventes; em Caná, Jesus é o Esposo, que mais tarde, dará a vida pela Igreja, sua Esposa.

 

Nesta hora anunciada e iniciada nas bodas de Caná está bem presente Maria, como aliás, estará sempre presente a Mãe, «em todas as horas», nos mistérios da infância e da vida pública, da cruz e da glória de Jesus.

 

A mesma função salvadora, que a Mãe de Jesus desempenhou em Caná, a favor dos esposos e dos discípulos, exerce-a agora, a favor de toda a Igreja e da humanidade inteira. Na verdade, a Nossa Senhora das Bodas de Caná roga por nós a Seu Filho, para que nos atenda nas nossas necessidades, quando não temos vinho, quando não temos alegria, por não termos pão, por não termos saúde, por não termos trabalho, por vivermos na solidão por estarmos em angústia e aflição. Maria roga por nós, mas também nos roga a nós, para que escutemos e realizemos à Palavra de Seu Filho, fazendo tudo o que Ele nos disser (cf. Jo 2,5).

A transformação da tristeza em alegria, nas bodas de Caná, é uma ideia associada também à Hora de Jesus Cruz. Foi intencional trazer esta ideia, para a redação deste hino, para assim inserir na perspetiva do mistério pascal a vocação e da missão da Virgem Maria, a quem invocamos “Nossa Senhora da Hora, nas bodas de Caná e junto à Cruz”!

 

A expressão insistente do final do refrão «mostra que és nossa mãe, mostra-Te Mãe de Jesus» era muito típica nas preces de São João Paulo II, que várias vezes a usou, inclusivamente numa oração de consagração a Nossa Senhora, em Fátima, na sua visita em 13 de maio de 1991. E por isso esta invocação faz parte do refrão deste Hino novo: “Em todas as horas, mostra que és nossa Mãe! Mostra-Te, Mãe de Jesus! Mostra-Te, Mãe de Jesus”!

 

 2. A Hora consumada na Cruz

 

Em segundo lugar, esta Hora é a Hora consumada na Cruz (cf. Jo 13, 1; Jo 17,1).Lemos no quarto Evangelho: “Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a sua Hora de passar deste mundo para o Pai, Ele, que amara os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim” (Jo 13,1).Esta hora é a Hora da Cruz, da Paixão, da morte e ressurreição.

 

Desta Hora, que vai da tristeza da Cruz e da morte à alegria da Ressurreição, falam-nos precisamente a segunda e a terceira estrofes do Hino, mas agora através de uma comparação, a mesma que Jesus usou para falar da angústia da morte e da consequente alegria da Ressurreição.

 

Jesus comparou a sua Hora à da mulher que sente angústia e tristeza antes do parto, mas logo depois se esquece da dor e vive uma grande alegria (cf. Jo 16, 20-23). É uma bela metáfora, que aqui se reproduz quase literalmente, para correlacionar o título de Nossa Senhora da Hora com algumas expressões da piedade popular, que associam esta «Hora» à «boa hora» do parto. E por isso cantamos numa estrofe a angústia e logo depois a alegria. 

 

A mulher, quando está p’ra dar à luz,

sent’angústia, que chegou a sua hora

A Senhora da Prontidão logo vem.

E, sem demora, lhe segreda também:

«Não se perturbe o teu coração.

Estou aqui Eu, que sou tua Mãe»!

 

Encontram-se e recolhem-se nesta estrofe algumas expressões simples e interessantes do magistério do Papa Francisco, tais como o título de “Senhora da Prontidão” (EG 288), em alusão a Maria, que vai ao encontro da prima Isabel ao saber das suas necessidades (cf. Lc 1,39-45).Recolhe-se ainda do Papa Francisco uma bela citação de uma frase atribuída a Maria e que teria sido dirigida a São João Diego, numa hora de aflição: “Não estou aqui Eu, que sou tua Mãe” (cf. EG 286)?

 

E segue-se então à hora de angústia do parto a hora feliz de quem teve a graça dar à luz um filho, como se segue à morte de Jesus a alegria indizível da Sua Páscoa gloriosa:

 

Ao mundo [quando] dá à luz um filho…

[a mulher] já esqueceu a sua dor.

A tristeza se converte em alegria,

seu coração canta um hino de louvor.

Canta a toda hora com Maria ao Senhor:

«A minh’alma se alegra em Deus, meu Salvador»!

 

Este convite final à mulher para cantar, com Maria, o Magnificat é um dos desafios do Papa Francisco, na sua Exortação Apostólica sobre a alegria do amor em família (Amoris laetitia). Ele convida as mulheres grávida e as mães (cf. AL, 171)a cantar um hino de louvor.

 

Nessa Hora Maria está junto de Jesus, firme e de pé, junto à Cruz (Jo 19,25-27). Nessa Hora, Maria é-nos dada como Mãe, que devemos acolher, não como mais uma devoção entre outras, mas como parte essencial da nossa vocação de discípulos. “Eis aí a Tua Mãe” (Jo 19 27), diz Jesus ao discípulo amado e nele di-lo aos cristãos de todos os tempos. Nessa Hora, somos todos confiados como filhos a Maria, nas palavras de Jesus a sua Mãe: “Eis aí o teu filho” (J0 19,26). E, desde aquela hora, podemos exclamar como o Papa Francisco “Temos Mãe, temos Mãe” (Homilia, Fátima, 13.05.2017). 

 

Jesus parece dizer a Maria, “mostra agora que és Mãe, não apenas a minha Mãe, mas a Mãe de todos aqueles por quem entrego a minha Vida”. Assim mesmo cantamos na terceira estrofe:

 

«Mulher, chegou a Hora. Eis aí o teu Filho.

Eis aí a Tua Mãe», fonte de luz.

Desd’essa hora o discípulo A recebeu:

Mãe dos homens, redimidos pela Cruz.

Mãe compadecida do mundo em dores de parto,

até que nos germine a justiça do Céu.

 

Do magistério do Papa Francisco é esta referência final às «dores do parto até que germine a justiça” (EG 286), dando assim um sentido mais universal às dores da humanidade e da criação inteira, que “geme ainda as dores de parto” (Rm 8,22), que nos aparece na terceira estrofe.

 

3. A Hora da partida na Ascensão do Senhor

 

Por último e em terceiro lugar, esta Hora, que faz parte do título da nossa Padroeira, é a Hora da partida, a hora da despedida, na Ascensão do Senhor (cf. At 1,4-11), aquela Hora em que Jesus parte para ficar e nós ficamos para partir. É a Hora da Missão, a hora que marca o tempo e a vez da Igreja, chamada a ser Mãe, à imagem de Maria.  E a Igreja é chamada a exercer esta maternidade, alimentando os seus filhos e renovando-os nas sete fontes da alegria, nos sacramentos, sobretudo do Batismo e da Eucaristia. Por isso, cantamos assim:

 

Chegou a Hora e partiu para o Céu;

o Esposo é exaltado em glória!

Igreja és Mãe, à imagem de Maria:

dá à luz no corpo e sangue da História.

Renova-nos nas sete fontes da alegria:

Mãe d’Água, dá-nos pão e o vinho bom da Eucaristia.

 

“Chegou a Hora e partiu para o Céu”. Recordemos a este propósito que, não por ocaso, a Festa da Senhora da Hora se celebra precisamente nesta quinta-feira da Ascensão do Senhor, solenidade que entre nós, por não ser feriado, foi transferida para o domingo seguinte. Esta é hora, em que, diz a tradição popular, nem as aves mexem nos ovos dos seus ninhos.

 

A referência final à “Mãe d´Água”, evoca o título primitivo e pagão das terras onde se instalou a Igreja Antiga e a devoção mais primitiva a Nossa Senhora da Hora, cuja capela em sua honra remonta a 1514. E esta água aponta obviamente para a fonte batismal.

 

O pedido “dá-nos pão” alude indiretamente a uma tradição que há nesta paróquia de guardar um pouco de pão, para o ano seguinte (reminiscências talvez da festa das espigas por ocasião da Ascensão). E quando pedimos o “vinho bom” queremos relacioná-lo com o sinal admirável de Caná e com o dom precioso da Eucaristia, verdadeira e perene fonte da alegria e do amor em família (cf. AL 1; 318).

 

Irmãos e irmãs: Elaborado no Centenário das Aparições de Fátima, este Hino novo quis ser um feliz começo, para as comemorações dos cem anos da nossa Paróquia de Nossa Senhora da Hora, para que este centenário se torne um fontenário para a vida toda. Para toda a vida. Para a vida de todos os filhos de Deus. Assim o esperamos. E creio que, de algum modo, assim o alcançamos, com a proteção de Nossa Senhora da Hora. Que Ela acompanhe com a sua solicitude materna o caminho desta comunidade, que Ela acolha no seu regaço os anseios de todos e de todas, que aqui, e nas sete Bicas, procuram n’Ela a fonte da Vida, quer nas horas de tristeza, quer nas horas de alegria.

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