HOMILIA NA QUINTA-FEIRA SANTA 2026
Cheira a Páscoa!É chegada a Hora de Jesus passar deste mundo para o Pai. E, na noite em que Jesus ia ser entregue (1 Cor 11,23), Jesus surpreende os discípulos com sinais e gestos abissais de amor, que antecipam a Sua entrega, morte e ressurreição.
1. Tomando o pão ázimo e uma taça de vinho, dando graças ao Pai, Jesus parte e reparte o Pão, dando-o a comer e a saborear aos Doze. E dá-lhes igualmente a beber do cálice da nova aliança (1 Cor 11,23-25)! Jesus transforma o Pão e o Vinho em memória viva e permanente do Seu Corpo entregue e do Seu Sangue derramado por nós. Inaugura-se uma nova forma de presença, real e substancial. Jesus permanecerá presente, para lá da sua ausência física, um pouco – diríamos com a devida diferença – como o odor do perfume, sensível e invisível, acompanha e prolonga a presença de alguém, que partiu de junto de nós. Jesus deixa-nos na Eucaristia o odor e o sabor da Sua presença e do Seu amor até ao fim! Com o mandato “fazei isto em memória de mim” (1 Cor 11,24) Jesus confia aos Apóstolos o dom imenso da Eucaristia e faz deles ministros, servidores do banquete sagrado, pelo qual torna presente o acontecimento do seu mistério pascal: “sempre que comemos deste Pão e bebemos deste Vinho, anunciamos a sua morte” (1 Cor 11,26). Anunciar a morte do Senhor é anunciar a dádiva da vida por amor. Por isso, nesta celebração comemoramos, inseparavelmente, o dom do sacerdócio ministerial confiado aos Doze Apóstolos e o dom da Eucaristia, para a redenção de todos!
2. Mas há outro gesto abissal, associado à instituição da Eucaristia. No decorrer da Ceia, Jesus lava os pés aos discípulos (Jo 13,1-15): um gesto impressionante e chocante, porque era trabalho dos escravos receber um hóspede, lavando-lhes os pés. Para Jesus, não se tratava tanto de um gesto de hospitalidade, mas de um sinal profético e indicativo da Sua humilde submissão à vontade do Pai. Naquele gesto de Jesus, Jesus revela-Se como o Servo de Deus, que veio para servir e dar a vida (Mt 20,28).Aquele gesto aponta para a humilhação da Cruz, para o serviço e para a entrega por amor, até ao fim, pela salvação do mundo. É um gesto que revela a sua caridade sem limites. Eis porque nesta celebração comemoramos também o mandamento novo da caridade, fazendo da Eucaristia, escola de entrega e de serviço a Deus e aos irmãos!
3. Mas o cheiro da Páscoa reporta-nos à memória de um outro lava-pés: o lava-pés com perfume, seis dias antes da Páscoa. Maria de Betânia lavou os pés do Senhor e ungiu-os com perfume (cf. Jo 12,1-3). Na cultura judaica, ao gesto do lava-pés, estava associado – sobretudo na receção para os banquetes – o gesto de perfumar a cabeça! Sinalizava a honra devida ao Hóspede. O gesto da mulher que ungiu de perfume os pés de Jesus, foi recebido por Ele, como uma espécie de prenúncio do perfume com que as mulheres haviam de O querer ungir na sepultura (Mc 16,1), sendo depois surpreendidas pelo túmulo aberto: então o fétido odor da morte transformar-se-á em aroma da vida (cf. 2 Cor 2,16)! O odor do perfume recorda-nos, por isso, o excesso do amor, a essência do serviço e da entrega e da própria ressurreição: o odor não dá nas vistas, não prende; é sobretudo memória existencial de uma presença que permanece na ausência. O perfume do cristão deve ser o da virtude da caridade de Cristo, a exalar por toda a parte!
4. Ao recebermos e apresentarmos, no início desta celebração, os santos óleos, recordamos que todos somos ungidos com óleo perfumado, no Batismo (na cabeça) e na Confirmação (na fronte). Todos participamos do sacerdócio de Cristo! “O exercício deste sacerdócio real realiza-se de muitas maneiras, em primeiro lugar participando na oferta da Eucaristia. Mediante a oração, a ascese e a caridade ativa, testemunhamos uma vida renovada pela graça de Deus” (Leão XIV, Audiência Geral, 18.03.2026). Este óleo perfumado recorda-nos que “somos para Deus o bom odor de Cristo” (2 Cor 2,15).
5. Mas este óleo perfumado do crisma também unge as mãos do sacerdote, no dia da sua Ordenação Presbiteral. Doravante, as mãos do Padre são destinadas a abençoar, a perdoar e a consagrar. Ungido nas mãos, o sacerdote não age mais por si mesmo, mas em nome de Cristo, na pessoa de Cristo (in persona Christi), o Ungido do Pai!
6. Irmãos e irmãs: Precisamos muito de lavadores de pés, no serviço humilde da caridade; precisamos tanto de pão quanto de rosas; precisamos de lavar os pés com o perfume do amor, espalhando a fragrância da vida a quem nos rodeia! Mas precisamos também de mãos ungidas, que nos guiem. Peçamos a Deus, a graça de sacerdotes santos, que ativem e sirvam o sacerdócio comum de todos os fiéis. Neste dia do sacerdócio ministerial, rezemos pelas vocações sacerdotais, tomando as palavras do poeta Daniel Faria – meu colega no seminário –: “Dá-nos mãos ungidas que nos guiem. Entrega-nos, Pai, quem nos conduza, até sermos todos em Ti” (Fr. Daniel Augusto, O.S.B., + 1999). Ámen.