Homilia no III Domingo da Quaresma A 2026
1.A sede e fomepõem em causa a nossa sobrevivência! E, por isso, são duas privações, que testam até ao limite os nossos limites e nos põem absolutamente à prova. Onde há gente a morrer de fome e de sede, como se pode falar ainda de humanidade? Como se poderá ainda falar de Deus a estômagos vazios? O Povo de Deus conheceu bem o tormento da sua sede no deserto, a tal ponto que se interrogava: «O Senhor está ou não no meio de nós?». E, Junto ao poço de Jacob encontram-se, inesperadamente, Jesus e a Samaritana. E ambos têm sede. Entretanto, também por ali há também fome, pois “os discípulos tinham ido à cidade comprar alimentos”. E quando regressam, dizem a Jesus: “Mestre, come”. E Jesus, assim como mostrou ter outra sede e outra água para oferecer, também fala de outro alimento, que sustenta a sua vida: fazer a vontade do Pai! Há um pão que alimenta o corpo. E há um alimento que sustenta a vida inteira!
2.Assim, uma leitura, que mergulhe nas águas profundas do Evangelho, conduz-nos à descoberta de uma sede, que a água do poço não sacia; conduz-nos a uma fome que o pão de trigo não mata. A sede de Jesus é outra! Jesus começa por pedir à samaritana: “Dá-Me de beber”. É verdade, que Ele tem humanamente sede de água, no pico do calor do meio-dia. Mas a conversa com a samaritana mostra que a sede de Jesus é ainda outra: é a sede da sua sede, é a sede de tocar as nossas sedes, de entrar nos nossos desertos. No fundo, também é outra a sede daquela mulher samaritana, quando vai ao poço buscar água, para ali encontrar o amor da sua vida. Há nela uma sede de amor verdadeiro, uma sede de sentido para a vida. Ela teve cinco maridos e aquele que tem agora não é seu. Ela vive de relações abusivas que a iludem e consomem, mas não saciam! E Jesus não a julga por ter procurado matar a sede em água inquinadas; antes desperta nela uma sede nova: “Se conhecesses o dom de Deus… Ele te daria água viva. E a mulher começa a sentir, no fundo do poço das suas misérias, que esse Jesus, o Messias que havia de vir ao mundo, esse Jesus que está ali a falar com ela, Ele e só Ele lhe pode saciar a sede de felicidade, a sede de amor, a sede de Deus. Por isso, pede a Jesus: “Dá-me dessa água”. E Jesus oferece-se como fonte de água viva. Sim: do coração daquela mulher – como do coração de todo aquele que crê – jorra uma fonte de água viva para a vida eterna, jorra o dom do Espírito Santo!
3. Estamos a entrar no coração da Quaresma. Esta é a semana que nos desafia a apurar o sentido do sabor, do paladar, a purificar e a elevar os nossos desejos, que tantas vezes afogamos em excessos de comida e de bebida. Para quem está farto, nenhuma comida sabe bem; para quem não tem sede, nenhuma bebida apetece! O excesso de comida e de bebida – num consumo sempre superior às nossas necessidades – degrada-nos o corpo e a alma; faz-nos perder o sentido do paladar e destrói também a nossa sensibilidade espiritual. Como se pode ter predisposição para rezar, como se pode saborear o alimento eucarístico, com o estômago a abarrotar? Como se pode apreciar o pão e o vinho eucarísticos, se nem sequer valorizamos a simplicidade do pão quotidiano e de um copo de água fresca? Precisamos de compreender que, também, para saciar a fome e a sede, “quanto menos, tanto mais” (LS 222), quanto menos tem o prato, tanto mais se saboreia a comida! Dizia Santo Inácio de Loyola: “Não é o muito saber que sacia e satisfaz a alma, mas o sentir e saborear internamente as coisas”. Combatamos o consumismo obsessivo, cultivemos a frugalidade, regressemos à sobriedade e à simplicidade, para despertarmos em nós a fome de outro alimento, para escavarmos, no fundo do poço da nossa alma, um fio de água viva!
Que a Eucaristia que celebramos nos conduza às fontes da vida, que alimentam e saciam a nossa fome e a nossa sede de Deus! Irmãos e irmãs: Saboreai e vede como o Senhor é bom(Sl 27,4)!