Homilia na Festa da Sagrada Família A 2025
1. A Sagrada Família não se alberga num Presépio instalado! Afinal é velha a tão falada crise da habitação, pois “nem sequer havia lugar para eles na hospedaria” (Lc 2,7). O Presépio é verdadeiramente a Casa do Caminho, sempre a caminho e na direção do caminho indicado pelo Senhor. Jesus, acabado de nascer, é perseguido por Herodes e torna-se um refugiado político no Egipto. O Evangelho mostra-nos os dramas da Sagrada Família, uma família de refugiados, sempre em movimento, no caminho, a caminho, pelo caminho: de Nazaré a Belém, de Belém ao Egito, do Egito a Nazaré, de Nazaré a Jerusalém. Caminham todos juntos, Jesus, Maria e José, enfrentando o risco e a novidade, as surpresas e os percalços, as dúvidas e os medos, os sonhos e os pesadelos, tão comuns às famílias do nosso tempo, sem casa, sem pátria, sem abrigo. Trata-se, portanto, de uma família a caminho, no caminho. Os quatro sonhos de José são como que os quatro pontos cardeais, que lhe oferecem as coordenadas do caminho. Na Sagrada Família, as decisões fundamentais não são tomadas de leve ânimo, por impulso, mas sempre na busca comum da vontade de Deus. É o Seu desígnio de amor, que une e guia os passos desta Sagrada Família, sempre a caminho!
2. Numa palavra, na Sagrada Família, todos caminham juntos.Neste sentido, podemos contemplar a Sagrada Família – e nela cada família humana – como um verdadeiro laboratório de sinodalidade: um lugar onde se aprende a caminhar juntos, a escutar, a dialogar, a discernir e a decidir em comum. A vida partilhada, as decisões tomadas em conjunto, a participação de todos — cada um segundo a sua maturidade — são sinais concretos de sinodalidade. Aprofundemos alguns caminhos sinodais de esperança na família: a escuta empática, o diálogo cordial, a comunhão na diversidade.
2.1. A família é um lugar de escuta. E a Sagrada Família é uma família de “ouvintes”.José é o homem silencioso, que escuta o ritmo da vida, escuta Deus nos próprios sonhos, escuta Maria, em quem confia. Não impõe, não domina, mas escuta e faz. Maria é a fiel ouvinte da Palavra. Jesus é a Palavra do Pai, que Maria e José aprendem a escutar. Na família, todos precisam de ser ouvidos e todos devem aprender a escutar. Desenvolvamos uma escuta empática, capaz de acolher o que o outro nos quer dizer sem filtros e até mesmo escutemos o que não nos diz. Não se trata de uma escuta, como expediente, para me dar o direito de falar logo a seguir. Muitas vezes, não estamos a ouvir a outra pessoa, quando ela fala; enquanto ela fala, estamos a pensar no que lhe vamos dizer, quando ela acabar de falar! Ora, a escuta empática guarda silêncio enquanto o outro fala e esse silêncio prolonga-se quando o outro acabou de falar. Este silêncio consente e guarda a palavra, que o outro acabou de me dizer. É uma bênção encontrar uma pessoa e uma família, onde todos são capazes de se ouvir atentamente.
2.2. A família é um campo de treinos para o diálogo. O “caminhar juntos” na vida familiar exige um diálogo contínuo e construtivo, em que seja dado o tempo necessário a cada um, para expor o que pensa e sente, sem ser interrompido pelo outro; um tempo para cada um falar com franqueza e escutar com humildade. Importa encetar um diálogo que seja não um duelo, mas um dueto; que seja uma conversa esclarecedora e não uma espécie de debate televisivo entre rivais! Precisamos de saber esperar pela hora certa, encontrar as palavras justas, para poder dizer as coisas mais duras, de modo a não ferir e a construir a paz. Este diálogo, óleo do motor do amor entre os esposos, também é fundamental entre pais e filhos, porque os mundos dos pais e dos filhos são hoje muito diferentes e a evolução das ideias e costumes é super-rápida. A autoridade da palavra dos pais deve ser exercida por amor e não como afirmação de poder ou de domínio ou pior ainda como vingança do mais forte sobre o mais fraco. Não é admissível ver os filhos a tratar os pais como ignorantes, nem é bom os pais exasperarem os filhos, com palavras e gestos que os diminuem, humilham ou desanimam. É preciso aprender a sentar-se para conversar, isto é, a voltar-se para o outro, a pôr-se no lugar do outro! Nunca nos cansemos de dialogar, olhos nos olhos, coração a coração.
2.3. A família é Casa e escola de comunhão: o Filho de Deus nasceu numa família humana para nos acolher na Sua família divina, em que a unidade das três pessoas distintas não sacrifica nem anula, antes promove, a diversidade de cada uma delas.No seio da família, vivemos esta riqueza das relações entre pessoas unidas, pelo laço do amor, na diversidade de carácter, sexo, idade e função. As diferenças não ameaçam, enriquecem. Na família, cada pessoa é amada e reconhecida na sua dignidade e singularidade. É na família, que se descobre que todos somos diferentes; somos uns dos outros, uns nos outros e uns para os outros; ali aprendemos que nos pertencemos mutuamente, mas que ninguém se toma como dono de ninguém. Só é possível construir uma família, quando o «nós» prevalece sobre o «eu». Eis por que é tão importante que os casais e famílias não tomem decisões rotativas, para satisfazer o «ego», em regime de alternância democrática: umas vezes para fazer a vontade à esposa, outras para fazer a vontade ao marido; umas vezes para fazer a vontade aos pais, outras para fazer a vontade aos filhos. Não. Juntos, marido e esposa, pais e filhos, procurem encontrar o consenso de uma decisão, que resulte da reflexão partilhada por todos, mesmo que se demore mais tempo. Isto exige que cada um renuncie àquele «eu é que sei». Ora, “ninguém pense ter todas as respostas. Cada um partilhe com abertura o que tem. Todos acolham com fé o que o Senhor inspira” (Leão XIV).
3. Escuta empática, diálogo cordial, comunhão na diversidade: o Senhor nos ajude a abrir estes três caminhos de esperança em família,com pequenos passos de aproximação, com gestos inclinados e concretos de atenção, com pedidos e ofertas de perdão, sem pedras nos rins nem no coração; e sobretudo com muita paciência e um cuidado extremo com os pequenos detalhes do amor. No casal, na família, os pormenores são sempre «por-maiores»!
Abre-nos, Senhor, estes caminhos de esperança na família humana, para que, seguindo o caminho da Sagrada Família, cada família humana se torne imagem da família divina! Este é o «Projeto Nazaré»: Construir e Habitar a Casa do Caminho!
cf. versão mais breve, no Guião em anexo.