HOMILIA NO IV DOMINGO DE ADVENTO A 2025
Estamos às portas do Presépio, a Casa do Caminho. Mas, ainda antes de lá chegarmos, procuremos acompanhar o drama de José, figura discreta e silenciosa. Dele não ouvimos uma única palavra nos Evangelhos. Mas ele fala-nos no seu silêncio, na sua resposta obediente de homem justo, surpreendido pelo inesperado! Vamos até José e deixemo-nos também nós surpreender por Deus e pelos seus sinais.
1.José tinha os seus projetos, os seus sonhos: casar com Maria, formar uma família, viver uma vida justa. Mas, de repente, eis que tudo muda. Maria, sua esposa, aparece grávida, quando eram ainda noivos, sem vida em comum. Nada parece encaixar. Os planos de José desmoronam-se! José está dividido: por um lado, sabe que aquele rebento não é da sua carne, e não deveria, portanto, tomá-l’O como seu filho. Por outro lado, a Lei obrigaria a denunciar e a entregar Maria às pedras da condenação. É uma situação dolorosa, dilacerante, para um homem justo, como José. José confia no testemunho de Maria, mas nem pensar em contar essa história aos vizinhos! Diriam que é um ingénuo, não é um homem a sério, transgrediu a lei, foi enganado por Maria...
2.José entra numa verdadeira crise. E a crise pode levar ao fechamento e ao medo! Mas José faz o contrário: ele habita a crise, pondera todas as coisas, deixa-se peneirar interiormente! José não cede à raiva, nem à amargura, nem ao medo. Não se deixa dominar pelo escândalo, nem pela opinião alheia. Ele não reage para proteger a sua própria reputação, nem para satisfazer o olhar curioso dos vizinhos! Quantas vezes, nós, pelo contrário, decidimos preocupados com o que outros vão dizer, a pressão do ambiente, a morbidez das redes sociais! José ensina-nos isto: uma decisão precipitada corre sempre o risco de ser injusta. O discernimento de uma decisão precisa de tempo, de silêncio e de oração, de ponderação, de diálogo, de confronto!
3.É precisamente nesse espaço, que Deus mostra a José que aquela crise não é o fim, mas o início de acontecimento único. Deus é especialista em transformar crises em sonhos de esperança. Não os sonhos, tais como nós os pintamos. Os caminhos de Deus não são os nossos, mas são sempre mais amplos, mais profundos e mais belos!
4.Irmãos e irmãs: Três conselhos de José, para um Natal em modo sinodal:
4.1.Quando a vida nos surpreende, com acontecimentos que não compreendemos –uma doença, uma morte, uma crise familiar, um fracasso, uma mudança imprevista – quando os nossos planos se baralham ou se desfazem, tenhamos claro: Deus não entra na nossa vida, apenas e quando tudo corre como estava planeado: mas também — e sobretudo — Deus entra quando a vida nos surpreende. Não devemos reagir por instinto, mas procurar entrar nos sonhos de Deus, perguntando-nos: “O que é que Deus me quer dizer com tudo isto que agora me está a acontecer?”
4.2.José muda de posição. Aquilo que antes lhe parecia a decisão mais justa — afastar-se de Maria, repudiá-la em segredo — deixa de o ser, na luz da vontade de Deus. Mudar de opinião ou de posição não é um sinal de fraqueza, mas de fidelidade a Deus. É sinal de humildade espiritual. Só quem procura sinceramente a vontade de Deus é capaz de rever as próprias certezas e deixar-se conduzir por Ele, por caminhos inesperados, aceitando que a lógica de Deus não obedece à nossa lógica mundana!
4.3.Vivemos hoje no meio de muitas tensões, extremismos e polarizações. Somos tentados a tomar posições rígidas, a defender ideias como se fossem absolutos. José ensina-nos que o discernimento exige mais escuta do que palavras, mais oração do que reação, mais abertura à novidade do que a rigidez de costumes.
5.Perguntemo-nos então: Nas surpresas da minha vida, procuro discernir os sinais e a mensagem, que Deus me está a comunicar? Estou disponível para escutar, dialogar, ponderar, até ao ponto de mudar de posição, de opinião, de caminho? Ou sou rígido, incapaz de acolher a novidade, com que Deus me surpreende?
São José nos ajude a acolher o Natal, fora do circuito do habitual: um Natal que ainda nos surpreenda, com a prenda, por que todos esperam:Jesus, o Emanuel, Deus connosco. Vem, Senhor. Todos esperam por Ti. Abre-nos caminhos de esperança.