Homilia no XIII Domingo Comum A 2020
1. «Fique em casa» foi uma das palavras de ordem mais frequentes durante o estado de emergência pandémica. Para muitos, este “fique em casa” foi uma graça, uma oportunidade para aprender a habitar a própria casa, a reforçar os laços de afeto familiares e a redescobrir a família como o lugar mais seguro deste mundo, no meio da tempestade, primeira e principal rede social de apoio, no meio de inesperadas dificuldades económicas. Para outros, o prolongado confinamento em casa foi uma penitência, seja pela violência das relações difíceis ou inquinadas, seja pelo cansaço dos dias intermináveis, seja porque a casa se tornou sala de aula e posto de trabalho. Neste sentido, podemos dizer que a família emergiu desta pandemia como primeira escola da fraternidade, primeiro laboratório de vida social, primeiro hospital do cuidado de uns pelos outros. É importante não perder isto de vista, hoje e amanhã: cada família cuide da sua família. Cada família cuide de uma família.
2. Não menos importante foi a descoberta e o aprofundamento da família como Igreja doméstica, isto é, como primeira célula da Igreja e primeira rede essencial da missão e da transmissão da fé. Os pais começaram a assumir-se como primeiros e insubstituíveis educadores da fé: muitos descobriram o valor da catequese, acompanhando os filhos e interagindo com as propostas vitais e digitais; houve casais que reaprenderam a rezar juntos e não mais “cada um para seu lado”. Muitas famílias aproveitaram as variadas propostas de liturgia familiar para celebrar, do modo possível, o domingo, dia do Senhor. Outras criaram o seu canteiro espiritual, para acompanharem, em casa, todos juntos, as celebrações da Eucaristia ou do rosário, teletransmitidas pela TV e pelas redes sociais. Outras simplesmente habituaram-se a fazer uma pequena oração, no início e no fim das refeições. É um caminho aberto, que precisamos de aprofundar cada vez mais. Aproveitemos as oportunidades desta crise. Porque pior do que esta crise, seria mesmo desperdiçá-la.
3. A liturgia deste domingo insiste na importância deste “fique em casa” e mostra-nos como a casa é o lugar por excelência da hospitalidade a Deus e aos irmãos. Na verdade – dizia a 1.ª leitura – uma mulher de Sunam convidava, com insistência, o profeta Eliseu a comer em sua casa. Por isso, “sempre que por ali passava era em sua casa que (Eliseu) ia tomar a refeição”. Um quarto com uma cama, uma mesa, uma cadeira e uma lâmpada são suficientes para dar hospedagem a este homem de Deus, que premeia a generosidade deste casal com o dom de um filho nos braços. Isto quer dizer que, também hoje, Deus quer habitar a nossa casa, fazer do nosso quarto lugar de oração, fazer da mesa da refeição lugar de bênção, de partilha e de celebração da vida em comum. Precisamos de reaprender a sentarmo-nos mais tempo na cadeira ou no sofá, para exercitar o diálogo conjugal e familiar para a escuta recíproca, a fim de que Deus possa acender uma luz em tantas fendas e escuridões da nossa vida.
4. Não desperdicemos, portanto, esta graça da redescoberta da família como Igreja doméstica, pondo Cristo cada vez mais no centro da nossa casa. Quanto mais o amor de Cristo estiver no centro da nossa vida e da nossa família, mais o amor familiar crescerá entre todos.
5. Queridos irmãos e irmãs, queridas famílias: os tempos próximos aconselham-nos, por várias razões, a ir para fora cá dentro, a fazer uma vida mais caseira e umas férias mais «em família». Não nos entristeçamos por causa disso. Peçamos ao Senhor que abençoe as nossas famílias para que, estando em casa, encontremos em Cristo um refúgio, ao sairmos O tenhamos por companheiro, ao regressarmos O sintamos como hóspede, até que um dia cheguemos todos, felizmente, à morada para nós preparada na casa do Pai.