Paróquia Senhora da hora
Notícias & Artigos
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Liturgia e Homilias no XXX Domingo Comum A 2026

Homilia no XXX Domingo Comum A 2026
— forma mais longa *
1. A Palavra de Deus interpela-nos hoje, com uma atualidade surpreendente! Voltemos à 1.ª leitura, ao Código da aliança, onde se condensa uma lei tão antiga e sempre nova! Aplicando os 10 Mandamentos à vida social, o Senhor pede ao seu Povo que não prejudique nem oprima o estrangeiro, recordando-lhe: «Vós próprios fostes estrangeiros na terra do Egito». Depois, coloca sob a sua especial proteção a viúva e o órfão e condena a exploração dos pobres através da usura, isto é, da exploração abusiva com juros altos. E a Palavra de Deus desce ainda ao concreto de um gesto de caridade que nos é familiar: se alguém receber como penhor a capa do seu próximo, deverá devolvê-la antes do pôr do sol, porque é tudo o que o pobre tem para se cobrir durante a noite. Deus não fica indiferente ao frio, à insegurança e à aflição dos seus filhos, sem terra e sem teto!
2. Esta Palavra do Senhor faz-nos pensar na crise da habitação, que tantas pessoas e famílias vivem entre nós e por tantos países do mundo. Sem forçar o sentido do texto da 1.ª leitura, poderíamos prolongá-lo com este apelo: «Não especularás com a habitação, que é um bem de primeira necessidade». Já o profeta Isaías advertira: «Ai dos que juntam casas e mais casas e acrescentam campos a campos, até não haver mais espaço e até ficardes sozinhos no meio do país» (Is 5,8). Ora, perante o despejo de Maricarmen, uma madrilena de 87 anos, expulsa da casa onde sempre vivera, surgiu a resposta do Papa Leão XIV, numa pergunta contundente: «Qual é o problema do sistema que permite que uma anciã seja expulsa da sua casa?».
3. À luz desta Palavra, vale a pena recordar alguns princípios da Doutrina Social da Igreja, sobre o direito à habitação. Uma habitação digna não é um luxo reservado a alguns, nem pode ser tratada apenas como uma mercadoria. É um bem de primeira necessidade e, por isso, é um direito fundamental, porque toca a dignidade de cada pessoa, a estabilidade das famílias e a possibilidade de construir um projeto de vida. Uma casa é muito mais do que paredes e um teto: é abrigo, intimidade, segurança, lugar de encontro e de afetos. É, na linguagem do Êxodo, «a capa com que se cobrir» (Ex 22,26). A falta de uma habitação adequada não constitui, portanto, apenas uma carência material. Atinge profundamente a estabilidade da pessoa e da família. Sem ela, a pessoa fica exposta não apenas ao frio, mas também ao medo, à instabilidade e à humilhação. A Igreja reconhece a legitimidade da propriedade privada, mas recorda-nos que ela não é um direito absoluto, fechado ao bem dos outros. Os bens da criação foram destinados por Deus a toda a família humana e, por isso, tudo o que possuímos traz consigo uma responsabilidade social. Também a habitação não pode ser pensada apenas segundo a lógica do lucro e do mercado, esquecendo aqueles que não encontram uma casa onde viver. Quando as rendas absorvem quase todo o rendimento de uma família, quando os jovens adiam o seu futuro porque não conseguem ter casa, quando os idosos são afastados do lugar onde sempre viveram, não estamos apenas perante números ou dificuldades económicas. Estamos diante de rostos concretos e de feridas na dignidade humana, que não podem ser resolvidas com ideologias, mas com medidas concretas.
4. Esta realidade pede respostas de todos. Aos poderes públicos cabe promover políticas que tornem a habitação acessível e protejam os mais vulneráveis. À sociedade, cabe não se resignar nem fechar os olhos. E a cada um de nós cabe perguntar: que posso fazer para que ninguém viva sem «a capa com que se cobrir»? Este compromisso não pode limitar-se a iniciativas ocasionais: deve tornar-se uma atitude permanente de encontro com Cristo, presente naqueles que não têm onde viver.
5. Em contraposição a esta triste realidade, São Paulo elogia os Tessalonicenses que acolheram calorosamente a Palavra de Deus e os seus mensageiros. Lá, a hospitalidade venceu a hostilidade. E este é o caminho do Evangelho, quando nos recordamos que o Senhor veio habitar ou melhor, literalmente, veio “acampar” (Jo 1,14) no meio de nós, porque “não havia lugar para eles na hospedaria” (Lc 2,7).
6. Mas também a Igreja deve responder ao direito à habitação. Também a Igreja é chamada a ser casa de portas abertas: casa para quem chega de longe, para quem vive ferido ou cansado, para quem procura recomeçar, para quem traz dúvidas, para quem ainda não sabe rezar e até para quem pensa que não merece entrar ou já não tem lugar. Uma comunidade que anuncia o Evangelho não pode deixar ninguém à porta nem «despejar» alguém do coração de Deus. O Papa Francisco repetiu-o com uma insistência que não podemos esquecer: na Igreja cabem «todos, todos, todos». A Igreja não é uma alfândega da fé; deve ser uma casa e uma família. Antes de perguntar de onde alguém vem ou como vive, deve abrir a porta e oferecer-lhe, também espiritualmente, «a capa com que se cobrir».
7. “Ser Porto” – como afirma o lema do nosso Sínodo – é ser porta aberta, para incluir e expedir; é ser porto de partida e porto de chegada, porto de encontro e porto de abrigo, comunidade que supera a hostilidade com uma hospitalidade sem fronteiras. Que cada pessoa encontre, na nossa terra, uma casa onde possa viver com dignidade e, encontre na Igreja, um porto de abrigo, onde caibam todos, todos, todos. Ámen.
* Nota: para a forma mais breve consultar o ficheiro "Liturgia e Homilias no XXX Domingo Comum A 2026".
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Folha interparoquial | N.º 131 | 25.10.2026
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