Homilias no IV Domingo da Quaresma A
Destaque

Um banho de luz na piscina de Siloé reconduz-nos à primeira obra da criação (Gn 1,2). Um pouco de lodo nos olhos reporta-nos ao gesto criador, quando “Deus formou o homem do pó da terra e lhe insuflou um espírito de vida” (Gn 2,7). A cura do cego de nascença é assim uma nova criação! E os diálogos e confrontos deste com os judeus são, para ele, um teste, um escrutínio, uma preciosa ajuda, para abrir pouco a pouco os olhos da fé, que só Jesus pode iluminar. A cura do cego é pois uma excelente catequese sobre o Batismo, como nova criação, como sacramento da iluminação cristã. Por ele tornámo-nos “filhos da luz”!

Homilia Dominical – IV Domingo da Quaresma A 2020 | Transmissão pelo Facebook

 

Mais uma vez, gostaria de partilhar convosco este Evangelho, de modo que ele ilumine esta hora obscura e tenebrosa da pandemia que a todos nos afeta e a tantos infeta. Começo por vos dizer que me impressiona neste relato a pergunta insistente: “Como foi que se te abriram os olhos”? Esta pergunta aparece-nos sete vezes.  E creio que ela pode ser a pergunta de cada um de nós. Porque também nós precisamos que nos abram os olhos, também nós temos dificuldade em ver. Mesmo com a Primavera em força, parece que vivemos de noite todo o dia. Sentimo-nos perdidos, na escuridão do medo, da dúvida, da desconfiança. Como o cego, também não vemos! Não vemos sequer esse vírus microscópico, invisível aos nossos olhos. Então, volta-nos ao espírito esta pergunta, uma e outra vez: Como se nos podem abrir os nossos olhos?  Deixo-vos sete pontos de luz, para sermos curados da nossa cegueira.

 

1.º Deixar-se interpelar. Deixar-se interrogar,uma e outra vez, como o cego. À medida que lhe fazem tantas perguntas, ele vai abrindo os olhos. Mais do que procurar respostas, deixemo-nos então interrogar, ao longo destes dias; deixemo-nos pôr em causa. Não fiquemos cegos com as nossas razões ou cegos com “a verdade” que julgamos dominar, quando, pelo contrário, é a verdade que nos possui, se a buscarmos num diálogo, cheio de bondade! Precisamos também do olhar dos outros, para ver melhor. Quem tem resposta para tudo, enfrenta a luz e fica cego! Deixemo-nos interrogar, começando por escutar as perguntas que agitam a nossa consciência.

 

2.º Abrir os olhos à realidade.É preciso “cair na real(idade)”, ver com olhos de ver tudo o que se está a passar. Não entrar em estado de negação: “isto não é bem assim, isto não me vai acontecer a mim”. É a cegueira intelectual dos fariseus e judeus, que não queriam ver a realidade. Ora a realidade é mais importante que a minha ideia, mais importante que a minha opinião. Deixemo-nos guiar, por quem sabe.

3.º Selecionar o pouco que vemos.Também é necessário fechar os olhos para ver melhor! O excesso de imagens, a busca desenfreada de informação desorienta-nos. Não acreditemos em tudo o que nos querem fazer crer ou ver. Procuremos selecionar as fontes de informação. É boa ideia selecionar o que vale a pena ver, fazer uma escolha do que assistir na internet ou na televisão.  Alguns exemplos: na quarta, às 15h, na RTP2, há catequese; em várias plataformas, acontecem transmissões da eucaristia; ao domingo, podemos alimentar a oração com a participação (à distância) na missa; há bons filmes para vermos juntos. Selecionemos, com rigor e moderação, o que vamos ver em família.

4.º Desconfiar do muito que vemos.Podemos estar a ver mal, a ver de forma distorcida, iludidos por uma falsa realidade. Cuidado com a «cegueira popular» (a cegueira dos pais e dos vizinhos do cego) que brota de uma ignorância atrevida e irresponsável. Diz-se que “em tempos de guerra, há mentiras como terra”! Cuidado com as falsas notícias (fake news). Não transformemos o “covid-19” no “c’o(u)vi-dizer”. Não passemos o dia com os olhos na TV, na tablet, no Telemóvel. Que a janela aberta para o mundo, por estes meios, não nos impeça de ver em primeiro lugar, quem está dentro de portas.

5.º Pedir a luz fé, para entender o que se está a passar. Estamos diante de uma pandemia sem precedentes.Precisamos não apenas de saber «como» isto aconteceu, mas porque é que nos está a acontecer?Precisamos da luz da fé, para ver em profundidade. À luz da fé, veremos que Jesus nos quer curar, mas pede a nossa colaboração. À luz da fé, veremos que já não basta olhar para as nossas razões e direitos. Nestes tempos obscuros, a luz da fé não elimina toda a nossa dor. Mas ilumina a nossa esperança. Não deixemos de dizer e rezar ao Senhor: “abre os meus olhos”!

6.º Pedir a fé, como luz pequenina ou como um grão de mostarda, para não cairmos na cegueira dos fariseus. Para defender a doutrina, negam a evidência, para defender a lei negam a vida. Há cristãos (e até padres!) queacham que nem sequer se deviam fechar as Igrejas. Mas que religião é esta que não olha para o bem do ser humano, mas só para si mesma e para as suas regras? Fé a mais é idolatria! O Senhor, no Evangelho, pede-nos apenas a fé do tamanho de um grão de mostarda. Não deixemos de rezar e dizer: “Senhor, creio em vós mas aumenta a minha fé”.

7.º Em tudo e sempre, aproveitar o tempo longo para o nosso encontro com Cristo. Este encontro faz-se sobretudo na oração e na escuta da Palavra de Deus.A oração permite-nos entrar e participar na própria visão de Deus. Pela escuta da Palavra de Deus, Jesus «abre-nos o entendimento», para compreendermos o mistério da Cruz, na luz da Sua Ressurreição.  A Palavra é farol dos nossos passos e a luz dos nossos caminhos.

 

Irmãos e irmãs: vamos continuar a celebração da Eucaristia. Que também os vossos olhos se possam hoje abrir e reconhecer Jesus presente, quando, sobre esta mesa, Jesus Se revelar ao partir do Pão.

 

Padre Amaro Gonçalo

21 e 22 de março 2020

 

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