O tempo é de luta, pela medalha olímpica e de esperança no troféu da vitória. O tempo é de luta contra a praga dos incêndios e de esperança na transformação do mundo. O tempo é de calor, na terra, e de esperança a arder no céu. A assunção de Maria, no meio de agosto, vem lembrar-nos o céu, como meta da nossa vida e acordar-nos assim para as coisas do alto. Neste meio de Agosto, da terra, do rio e do mar, contemplamos as alturas do céu, a que chegou, em primeiro lugar, Maria, a obra-prima de Deus. 

 

Entre os incêndios do Verão e a facha Olímpica acesa, está o fogo que Jesus traz a terra, a fazer-nos levantar do lodo fresco das nossas comodidades. Mas é assim. Fitemos os olhos em Jesus, o guia da nossa fé e imploremos, para nós e para todos os irmãos, a misericórdia do Senhor.

Em pleno mês de agosto, o mês da mobilidade, das viagens e peregrinações, das férias e deslocações, iniciamos também a Semana Nacional das Migrações e dos Refugiados, tendo Abraão, nosso pai na fé, como figura histórica de referência, nesta busca errante de uma terra prometida. Ele é a imagem do crente peregrino e do crente que acolhe Deus, na pessoa do outro. Somos desafiados, desde já, a viver a misericórdia, na prática da hospitalidade, em que se aprende a dar e a receber.

1.Não entra nada “a gosto” a Palavra de Deus, deste domingo, com exortações tão opostas aos apelos da publicidade, neste verão. Quando, por todo o lado, se diz “descansa, come, bebe, regala-te’, o Evangelho vem dizer-nos: ‘Insensato! Esta noite terás de entregar a tua alma’

Grandiosa figura, esta de Abraão, «nosso pai na fé». A cena, tão deliciosamente descrita no livro do Génesis, permite-nos, no contexto deste jubileu sacerdotal, contemplar, em Abraão, dimensões tão belas, como essenciais, da identidade e da missão do Padre. Destacaria apenas três.

 

1. Em primeiro lugar, Abraão, nosso pai na fé, é um «amigo de Deus» e um «amigo dos homens»!

 

O Senhor - diz a 1.ª leitura - continuava junto de Abraão. Nesta intimidade da oração, Deus habita o coração de Abraão e faz dele Sua morada, onde permanece! A oração é, em Abraão, um tratado de amizade com o Senhor. E, na base desta amizade, eleatreve-se a pedir, a interceder, a insistir, e a lutar pelo seu povo.

Nesta figura de Abrão, antevejo o sacerdócio ministerial, como experiência radical de uma vida projetada em Deus, e de uma especial amizade com Cristo. E vejo ainda o Padre, como aquele a quem Jesus chama amigo, “o amigo de Deus” e “o amigo” do Seu Povo, um mediador orante, e não um gestor habilidoso. Nesta medida, o padre é «um pai na fé», que gera no coração dos filhos a resposta generosa a Deus; é «um pai», que luta, negoceia, regateia, reza e intercede junto de Deus, pelo pão e pelo perdão dos seus filhos. O Padre deve ser um pai grande, como o nome de Abraão; não pode ser um patrão mesquinho, que gere uma “fábrica da Igreja”. «Pai» não é só a primeira invocação da oração, que Jesus nos ensinou; «Pai» é também a primeira marca da identidade sacerdotal.

 

2. Em segundo lugar, Abraão, peregrino, chamado a sair da sua terra, é a imagem do Homem, desviado do seu lugar.

 

Abraão, a caminho da Terra Prometida, de uma terra sem território, sem lugar no mapa, é uma projeção antecipada d’Aquele Jesus, “hóspede e peregrino no meio de nós” (Prefácio Comum VII), que andava, de terra em terra, sem lugar onde reclinar a cabeça.

 

Creio que é parte fundamental do sacerdócio estar exposto à falta de uma terra, para assim se projetar em Deus. O Padre não tem, por isso, “um lugar” em lugar nenhum deste mundo, para poder estar no coração de tudo e ser de todos. A nossa condição de padres é comparável à de “homens que são como lugares mal situados (…), homens que são como sítios desviados do lugar” (Daniel Faria). O Padre não precisa, por assim dizer, de ter um lugar de destaque e um futuro garantido, na sociedade, porque «a porção da sua herança é o Senhor» (Sl 15,5). E isto parece desafiar-nos, a assumir a missão do Padre, como a de alguém que não se pertence, que não dispõe de si para si, que não tem “uma agenda a defender” e, neste sentido, os padres podem comparar-se a “homens sem fuso horário / homens agitados, sem bússola onde repousem” (Daniel Faria).

Vós sabeis que vivi, aqui, nesta terra, dezasseis anos. Corri cantos e recantos, percorri ruas e vielas, entrei em casas, rezei, ri e chorei, com as famílias, e não haverá, talvez, um metro quadrado, destas terras abençoadas de São Gonçalo e São Veríssimo, que eu não tenha pisado, para fazer chegar a todos a alegria do Evangelho. Nada me fez mais feliz, quando ao passar, de lugar em lugar, e por certo lugar, ouvi a pequena Mónica dizer: “Ali vai o Jesus que anda”. Mas, houve um tempo, em que fui chamado a partir. E seria uma traição fazer-me ao lugar. Escreveu um bispo santo: “Quando o teu navio, ancorado há muito tempo no porto, começar a criar raízes, na estagnação do cais, faz-te ao largo” (Dom Hélder Câmara). E assim foi. Pelo que o meu lugar feliz não é a terra de Eiriz, onde nasci; não é sequer aqui, em Amarante, mesmo que eu deva dizer, como Pascoaes, que “Sem esta terra funda e fundo rio / Que ergue as asas e sobe em claro voo; / Sem estes ermos montes e arvoredos / Eu não era o que sou” (Pascoaes, Canção de uma sombra). Sem vós, eu não seria o mesmo, não seria o que sou, e quero dizer-vos que tendes um lugar muito bonito, no meu coração, de pastor, de amigo. Mas o meu lugar feliz, repito, não é aqui, ou acolá, na Senhora da Hora, onde estou, de alma e coração, mas não de pedra e cal. O meu lugar feliz é Jesus, na comunhão com a Sua Igreja. O meu lugar é ser o lugar onde os outros se possam encontrar!

 

3. Por último, não podia deixar de vislumbrar, em Abraão, o rosto da misericórdia divina!

 

Vede como Abraão não se limita a reclamar uma justiça retributiva, “para que não pague o justo pelo pecador”, mas atreve-se, pouco a pouco, a sondar e a perscrutar, em profundidade, o coração de Deus, e a apelar a uma misericórdia divina, pela qual, em atenção a alguns justos, sejam salvos todos os pecadores. Abraão deixa-nos antever, no seu regateio, que não será por 50, 45, 40, 30, 20 ou 10 justos, na cidade, que todos os outros serão salvos. Nós sabemos bem que por “por um só justo”, foram salvos todos os pecadores. E o único Justo, pelo qual somos salvos, é Jesus Cristo, pois estava escrito, que um só homem “havia de morrer, para reunir todos os filhos de Deus que andam dispersos” (Jo 11,51.52). “Ele anulou o documento da nossa dívida, cravando-o na Cruz” (2.ª leitura). Nesta oração de Abraão, podemos vislumbrar, em esperança, o rosto da misericórdia de Deus, que é Pai e é amigo, e da Sua infinita compaixão pelo Seu Povo.

Também aqui, o padre sabe-se chamado a amar e a interceder pela sua cidade, a lutar e a sofrer com as pessoas e por elas, a chorar os seus pecados, a rir e a sorrir, com as suas alegrias. Um padre, ungido do Senhor, é chamado a sair de si mesmo, a derramar o óleo da consolação e o vinho da esperança, sobre as feridas e os feridos do Seu povo.

 

Queridos irmãos e irmãs:

De Abraão a Jesus Cristo, e d’Ele à vocação e missão do Padre, acabamos assim, por nos cruzar e encontrar aqui, com esta figura tão inspiradora e exemplar, do nosso São Gonçalo, com o seu hábito religioso de dominicano, o seu cajado de pastor e peregrino, a ponte a seus pés, no seu ofício de mediador. Do São Veríssimo, vem-nos o testemunho desafiante daquela santa paciência, sem a qual a misericórdia não tem tempo para se revelar, no rosto de cada um!

Pedi, pois, ao Senhor, por intercessão de São Gonçalo e São Veríssimo, pela vossa cidade, pelas suas gentes, pelo seu pão, pelos seus sonhos; pedi por mim, para que seja sempre dos outros; pedi especialmente pelo vosso pároco, a quem, em primeiro lugar, devo a alegria deste dia; e pedi, por todos os padres, que são vossos. E porque este dia não é meu, é sobretudo para vós e para vossa alegria, rezai, comigo, e sem cessar:

 

Dá-nos mãos ungidas que nos guiem!

Entrega-nos, Pai, quem nos conduza,

até sermos todos em Ti”!

 

 

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