1. Ao longo desta Quaresma, fomos construindo, semana a semana, a “Cruz da Misericórdia”, tocando assim, de perto, a Carne sofredora de Cristo, nos que passam fome e sede, nos desnudados e desabrigados, nos prisioneiros da sua fragilidade física ou moral, e também nos que partem antes de nós e esperam o bálsamo de uma última carícia.

Jesus vai à nossa frente! Não podia ser de outro modo. O Seu amor está sempre primeiro. Jesus abre caminho e convida-nos a segui-l’O, com a alegria a simplicidade dos mais pequeninos. 

Isto de «visitar os presos» não é obra de misericórdia, ao alcance de todos! Esta semana antecipei uma espécie de visita virtual à cadeia, com estes textos bíblicos na mente. E a primeira coisa que me ocorreu não foi ocupar o lugar simpático do visitador, mas a cela do recluso, “lembrando-me dos presos, como se estivesse na prisão com eles” (Hb 13,3). A cadeia é um lugar onde também eu poderia estar: «quem não tiver pecados, atire a primeira pedra» (Jo 8,7), diz-nos Jesus, desarmando-nos de qualquer superioridade moral, para julgar o próximo.

Esta é uma daquelas parábolas, de que me abeiro, descalço e a tremer, com medo de tocar na tela e «estragar» a pintura, com explicações, sem propósito. Jesus consegue contar esta parábola, de forma tão viva, tão bela e comovente, que chega a parecer uma novela da vida real, se vestirmos a roupa do filho mais novo, perdido da cabeça, ou a do filho mais velho, duro de coração. Mas se, pelo contrário, nos pusermos à janela do Pai misericordioso, com vista direta para o coração de Deus, a nossa perspetiva muda completamente. Nada naquele Pai é normal: a liberdade com que entrega a herança e deixa o filho partir, a esperança que O mantém à janela de olho no filho até que regresse, a festa de arromba que manda preparar sem esperar por um pedido de perdão, a loucura daquela alegria maior que Lhe inunda o coração ao oferecer sem medida o perdão.

Numa terra tão árida e seca, como a Palestina, «dar de beber a quem tem sede» chegava a ser mais importante do que «dar de comer a quem tem fome». A resistência à sede é, nos seres vivos, bem mais curta do que a de um longo tempo de fome. Por isso, esta obra de misericórdia para com os homens é também um dever sagrado para com os animais e os outros seres vivos.

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