Esta é uma daquelas parábolas, de que me abeiro, descalço e a tremer, com medo de tocar na tela e «estragar» a pintura, com explicações, sem propósito. Jesus consegue contar esta parábola, de forma tão viva, tão bela e comovente, que chega a parecer uma novela da vida real, se vestirmos a roupa do filho mais novo, perdido da cabeça, ou a do filho mais velho, duro de coração. Mas se, pelo contrário, nos pusermos à janela do Pai misericordioso, com vista direta para o coração de Deus, a nossa perspetiva muda completamente. Nada naquele Pai é normal: a liberdade com que entrega a herança e deixa o filho partir, a esperança que O mantém à janela de olho no filho até que regresse, a festa de arromba que manda preparar sem esperar por um pedido de perdão, a loucura daquela alegria maior que Lhe inunda o coração ao oferecer sem medida o perdão.

Numa terra tão árida e seca, como a Palestina, «dar de beber a quem tem sede» chegava a ser mais importante do que «dar de comer a quem tem fome». A resistência à sede é, nos seres vivos, bem mais curta do que a de um longo tempo de fome. Por isso, esta obra de misericórdia para com os homens é também um dever sagrado para com os animais e os outros seres vivos.

Os três peregrinos, Pedro, Tiago e João, fizeram uma pausa no seu caminho, com Jesus, para Jerusalém! Estão felizes da vida, ao despertar do sono e de um sonho, que lhes enchia o coração de luz e esperança. E, num gesto de grande hospitalidade, estão prontos a armar três tendas, para dar abrigo à presença gloriosa de Jesus, de Moisés e de Elias.

Dar de comer a quem tem fome é a primeira obra de misericórdia. E até o diabo estaria disposto a amassar o pão, com o pó da pedra, para dar de comer a Jesus. Mas Jesus responde à tentação consumista, com a palavra das Escrituras: «nem só de pão vive o homem», a que se acrescenta «mas de toda a Palavra que sai da boca de Deus» (Deut.8,3; Mt.4,4b).

Começa bem cedo a quaresma deste ano jubilar! Parece até que a “pressa” da salvação, com que Deus nos quer “misericordiar”, apressou o calendário litúrgico, para nos oferecer mais depressa este tempo favorável, que não queremos passar em vão. A Palavra de Deus toca a rebate, como uma trombeta, e parece rasgar o nosso coração, com três apelos de urgência, que se tornam indicações concretas, para o caminho que nos levará até à Páscoa.

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